18 de set. de 2026
16 de ago. de 2026
Escrevo porque acho que às vezes me arrependo, que às vezes me arrependo de ter me afastado do passado, às vezes não tenho certeza de que meus esforços tenham servido para alguma coisa. Às vezes penso que toda essa luta foi em vão e que fugindo lutei por uma felicidade que nunca obtive.
Eu me sinto tão distante dos escritores que contam sua descoberta da literatura pelo amor às palavras e pela fascinação com a visão poética do mundo. Eu não sou como eles. Escrevia para existir.
3 de ago. de 2026
"Também fiquei pensando no que a Sra. Silvestre falou, que para o homem querer é tudo. Meu pai quis ir embora e foi. Deve ser fantástico ser homem".
"É muito confuso isso de ser gente. Tem vezes que a coisa é boa e o olho chora, e tem hora que a coisa é ruim e a boca ri."
27 de jul. de 2026
Desde que o mundo é mundo o cinema, a literatura e o teatro andam de mãos dadas. Se nos primórdios os livros eram adaptados para os palcos, hoje os palcos e a sétima arte se dividem para fazer da literatura algo visível que antes só fazia parte do nosso imaginário depois de ler. E quando a gente pára para pensar que A Odisseia, cânticos atribuídos a Homero de quase 3000 anos, foram adaptados para o cinema como a superprodução mais cara no currículo de Christopher Nolan, um contraponto entre o antigo e o moderno se sobressai aos nossos olhos.
Era de se esperar que muitos estranhariam a presença de armaduras, barcos e linguajar diferentes da Grécia Antiga, mas a liberdade que um cineasta tem para adaptar uma obra faz com que essas diferenças se tornem uma licença poética, porque como o próprio verbo diz, ADAPTAR não é copiar, é encaixar uma história em uma visão ou formato diferente. Uma coisa que entendi quando comecei a estudar cinema, é que se a nossa pretensão como espectador é encontrar uma exata cópia de um livro em uma adaptação, é aconselhável fazer a releitura da obra original, e não assistir a um filme.
Dito isso, quem vai ao cinema de coração aberto para assistir A Odisseia se depara com uma adaptação que faz jus a cada centavo de seu investimento: a presença ilustre de um elenco de peso e escolhido a dedo, a ausência de CGI e uso contínuo de efeitos práticos, a humanização de seres mitológicos e Deuses representados por forças da natureza e ambientações reais que dispensam o uso da tela verde deixaram o projeto apoteótico. Uma história contada de maneira não linear, que conta com flashbacks longos de momentos impactantes e reveladores, e uma tensão levada até a última cena do filme que ganha ainda mais impacto com a soma dessa narrativa, com uma trilha sonora densa e imersiva e atuações que te levam para caminhos que te confundem de maneira positiva para a sua experiência.
Quanto ao elenco, Matt Damon é aquele ator que muitos subestimam, mas que nunca deixou a desejar naquilo que se propõe a fazer. Muitos falam (mal) também da atuação de Tom Holland, mas como Telêmaco, um rapaz que cresceu perdido entre a história do pai e a responsabilidade que um dia teria que assumir sem direção alguma, só configurou o que espera do próprio personagem. A cerne de todos que marcam presença nessa história foi tirada de maneira brilhante por um elenco que caminhou entre a transparência de seus papéis com a responsabilidade de dar conta de uma história tão antiga, tradicional e importante para a literatura.
Falar de Nolan acaba se tornando dispensável, mas nunca dispenso um comentário que seja, rs. Todas as vezes que assisto uma entrevista do diretor em campanhas de divulgação de seus filmes, é como se eu assistisse uma aula gentil e genuína de como fazer cinema nos tempos modernos, mas sem abusar de tantas tecnologias que hoje temos em nossas mãos para ainda fazer o bom e velho cinema funcional. Ele se tornou um dos meus diretores favoritos porque independentemente da crítica a cada um de seus lançamentos, é como se eu tivesse a oportunidade de aprender mais e mais sobre essa arte que cresci consumindo e me apaixonando cada vez mais. E essa aula vai além do habitual que vemos em sala de aula como alunos de audiovisual: não é somente sobre uso de cores, de cortes, de cenários e construção de narrativa e roteiro, é como juntar tudo isso e fazer algo bonito, convincente e espetacular aos nossos olhos.
O trabalho do Nolan não se firma com o que ele fez e sim da maneira que ele fez. Os detalhes que as vezes podem parecer exagerado ou dispensável na verdade são aqueles famosos detalhes que fazem toda a diferença. Para mim, assistir aos seus filmes é entender a cabeça de alguém que enxerga tudo de maneira grandiosa, mas que não perde o fio da meada como muitas das vezes acabamos encontrando em algum outro filme. E que sorte tivemos de encontrar estúdios que acreditaram nas ideias desse homem!
Por fim, como frisei em todos os vídeos sobre A Odisseia que postei em minhas redes, não temos uma sala IMAX raiz nos cinemas brasileiros, mas se sua cidade possui alguma sala XD, vale encarar uma sessão nela para assistir A Odisseia e ter uma experiência além do que uma sala tradicional te proporcionaria. É um filme forte, lindo, com um som poderoso que te faz imergir a cada cena (principalmente na caverna do Ciclope, ali o patamar sobe a níveis de outro mundo). Permita-se encarar uma adaptação que vai além do padrão, mas que entende que a linguagem atual merece algumas mudanças pequenas de percurso. Vale cada minuto do seu tempo.
Neste video eu faço um resumão de todas as curiosidades sobre A Odisseia que encontrei nas entrevistas do Nolan e elenco durante a divulgação do filme:
11 de jul. de 2026
30 de jun. de 2026
A vontade de Cora é dizer que é importante porque tem uns homens grandes que se sentem pequenos por dentro. Porque alguns deles, como o pai de Gordon, levam a vida certos de que são tão superiores que acham que os filhos e os filhos dos filhos devem ser todos ser feitos em homenagem a eles. Porque as vezes a necessidade dessas pessoas de agradar as gerações passadas é maior do que a de amar as futuras"
17 de jun. de 2026
13 de jun. de 2026
28 de mai. de 2026
19 de mai. de 2026
27 de abr. de 2026
Queria ter visto mais na juventude da Diane. Senti que a autora ficou preocupada demais em construir o plot, e por isso foi necessário esconder muitas coisas que não entregasse a surpresa que ela queria entregar. Mas o foco na narrativa deixou o enredo um pouco precário, e é justamente aqui que jogo a culpa por não ter me conectado com ela.
9 de abr. de 2026
Depois do arrebatador "Se deus me chamar não vou", Mariana retoma seu jorro neurótico, humano e delicioso contando agora a história da septuagenária Aurora, encontrada desmemoriada e descalça na beira da estrada e procurando por uma certa Camila. Para uma amnésica, Aurora recorda-se de muito: da mãe que escovava seus cabelos até parecerem "uma peruca eletrizada"; do seu ato falho trágico religioso, de quando rezava na infância e dizia "agora é a hora da nossa morte amém"; dos anos em que deu aula de português em uma escola de riquinhos; da sua covardia perante a ditadura militar: "este país insiste que temos de arriscar a nossa própria vida, parece que esquece que tudo que temos é essa miséria da própria vida"; de um carnaval em que tentou perder a virgindade com um jovem brocha vestido de bebê; de um amante midiático que falava um português impecável, mas também sabia beber e socializar em boteco vagabundo e, sobretudo, das muitas mortes da filha Camila, sempre alternadas com momentos solares na companhia da melhor amiga de infância: "Camila ficou sendo minha melhor amiga desde o momento que olhou pra trás e perguntou se encharcado era com ch ou x". Seriam essas lembranças reais ou ela decorou dos muitos livros que leu, protegida, dentro de casa, dos infinitos perigos que existem lá fora? Camila, afinal, é a filha morta (que morreu de suicídio, de picada de escorpião, de acidente na estrada, de atropelamento de boi, de comida muito quente na cabeça, de fungo de pombo, de queda de coco, de cambalhota ou pirueta entre duas camas) ou a bela amiga – "muito melhor do que ser a mulher bonita é ser a amiga dela, a quem ninguém lembrará de examinar como envelheceram as coxas ou os joelhos, e que pode acompanhar com doçura os caminhos da decrepitude…"? Poderia uma mãe, tão obsessiva com a finitude humana e tão obliterada pela possibilidade da morte de uma filha ("não se pega o bebê minúsculo sem tatear com os dedos os espaços vagos, suspira-se a moleira, lamenta-se a lentidão geográfica das suas placas…") recordar qualquer coisa sobre a vida dela? Aurora não sabe sequer se teve mesmo um bebê. Pergunta-se, ao tocar a barriga, se alguma vez foi capaz de gerar um filho ali dentro, "não ter um filho é praticamente certificar-se da ausência de tragédias". Aqui a morte é temida, repetida, imaginada, exagerada, esmiuçada e listada de tantas formas que é quase possível rir dela ou- eu acredito que Mariana tenha conseguido esse feito- vencê-la.
Sinopse da editora
"quando ouvia adultos rezando eu me detinha particularmente na passagem que eu escutava errado, Agora é a hora de nossa morte amém, por isso eu tinha tanto medo que rezassem perto de mim"
Quando peguei este livro para ler logo após a leitura de Elena sabe, eu não imaginava que estava emendando dois livros com a mesma premissa: ambos mostram a realidade de uma pessoa idosa enfrentando uma doença degenerativa. Mas a diferença da escrita de Mariana Salomão Carrara é gritante - é o que chamamos hoje de alguém que não pesa o clima.
Não que o tema não deva ter clima pesado - não faz nem sentido esperar algo desse tipo - mas é importante frisar que a nossa autora brasileira tem um relacionamento diferente com as palavras, a ponto de transformar a narrativa em algo mais gentil, e consequentemente, faz com que o leitor tenha vontade de devorar mais rapidamente o livro.
Por ter sentido uma densidade muito forte em Elena sabe, infelizmente eu demorei mais para ler "é sempre a hora da nossa morte amém" e isso não foi culpa do livro. Foi um pouco de ressaca com o baque que a leitura anterior promoveu em meus sentimentos somado também ao meu momento de vida (impossível de me concentrar por muito tempo em algo) que atrasou meu devoramento natural, e mesmo diante de uma temporada péssima minha como leitora, foi praticamente impossível não notar o quanto a autora, assim como fez em "se deus me chamar não vou", tem o dom de dar leveza ao que encaramos como tragédia.
Porque no final das contas, as pessoas que levam exatamente o tipo de vida narrada nas histórias dela merecem isso: leveza.
Depois que Aurora é encontrada desnorteada na beira da estrada procurando por Camila, ela é levada para um abrigo e lá ela vai contar a sua história para Rosa, a assistente social que tem como missão encontrar a família de Aurora. A cada capítulo, a protagonista relata uma versão diferente de sua vida, sempre tendo os mesmos personagens: Antônio, o marido (ou ex), Camila, sua filha ou amiga, e os cachorros Perdoai e Ofendido. Em cada capítulo sua filha morre de algo diferente, memórias de sua amiga reacendem, mas a frustração em seu casamento sempre se faz presente. E cada vez mais que Aurora se força a lembrar, mais suas lembranças se tornam confusas - isso aconteceu mesmo? Qual versão dessas mortes é real? Existem duas Camilas ou só uma?
Ao fim nós descobrimos junto com Rosa a versão real da história de Aurora, mas não antes de passar por toda a tempestuosidade que suas memórias confusas causam em sua cabeça. E por mais que a leitura possa parecer subjetiva, a realidade é só uma - Mariana conta uma história através de Aurora justamente para que possamos mergulhar na realidade da protagonista, sentir na pele as dificuldades de sua confusão, enquanto a gente se dá conta que a tragédia é sofrida por quem cerca Aurora, e nem tanto por ela mesma.
Essa coisa que eu jamais vou compreender que é abreviar de propósito aquilo que já quase não dura, e que me é tão custoso manter.
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Outros livros que li da autora
17 de fev. de 2026
Eu terminei esse livro aos prantos e eu nem imaginava que ele tivesse tamanha sensibilidade mesmo escrito em palavras duras.
Elena sabe é um exercício de empatia com o leitor: conseguimos vestir o sapato do outro mesmo sabendo que essa pessoa é um ser humano difícil de lidar? O livro em si não é sobre a história de uma mãe em busca da verdade sobre a morte de sua filha - isso é somente um pano de fundo para nos mostrar todas as limitações de quem sofre de uma doença tão feroz como o parkinson e precisa se virar sozinha para fazer coisas que, pra quem é saudável, são tão simples que são até feitas por osmose.
É curioso como a autora escreve no mesmo ritmo de Elena: a imprecisão de quem sofre de parkinson, a lentidão de quem possui movimentos limitados, de como funciona a cabeça de uma pessoa que luta para não se esquecer de fazer coisas básicas, ao mesmo tempo que o fluxo de pensamento se atropela entre o que precisa ser feito com as lembranças de Rita.
Eu senti muita pena de Elena, não só pela sua doença, mas também por ter tido uma vida tão dura que justificava inclusive a sua desconfiança com tudo. A realidade é que é difícil esperar afeto de alguém que provavelmente sequer o recebeu um dia.
29 de jan. de 2026
Sinopse da editora
26 de jan. de 2026
13 de jan. de 2026
Acho que vem daí a palavra solidão, pessoas tão sólidas que ninguém vem checar se estão desabando.
Será que o vaga-lume pisca de dor? Se eu pudesse brilhar de dor eu seria um escândalo.
Eu acho que família é um vaso muito rígido, se você dobrar ou esticar demais ou enfiar muita coisa dentro tudo quebra em um milhão de cacos. Família é um vaso que quebra até por excesso de flores.
– Não, Carmem, às vezes a gente é discreto porque os outros são errados.



