Cultura

18 de set. de 2026

 


Antes de Kate Beaton se tornar uma quadrinista reconhecida, com tiras e ilustrações publicadas em diversas revistas, existia a Katie Beaton dos Beatons de Cape Breton, da costa leste do Canadá. Mais especificamente de Mabou, uma comunidade à beira-mar onde as lagostas são tão abundantes quanto as praias, os violinos e as canções gaélicas. Recém-graduada, sem emprego e sem perspectiva de quitar o empréstimo estudantil, Katie decide ir para o oeste a fim de participar da “corrida do petróleo de Alberta”. Junta-se a tantos habitantes da costa leste que abandonaram a tão amada terra natal em busca de um emprego com bom salário. Em pouco tempo nos campos, Katie depara com a dura realidade da vida nas areias betuminosas, onde o trauma é uma ocorrência diária – embora jamais seja discutido. Patos - dois anos nos campos de petróleo é uma história que não costuma ser contada, a história de um território que se orgulha de seu etos igualitário e de sua beleza natural ao mesmo tempo que explora as riquezas de terras roubadas tanto quanto a vida de povos originários.

Sinopse da editora


Acho que histórias em quadrinhos tem uma certa mágica de mostrar pra gente inúmeros tipos de assuntos diferentes em um contexto altamente entendível para todos os tipos de mentalidades, até das mais cabeçudas criaturas (deve ser porque seus autores literalmente desenham pra que possamos entender, né?), e aqui, Kate Beaton não foi diferente. E essa missão dela não deve ter sido nada fácil, afinal de contas, ela relata sua própria experiência, diante de uma violência sofrida em sua juventude, de uma forma tão didática que esse livro se torna uma leitura necessária, principalmente para homens, para entender o quão nocivo é o comportamento machista, sobretudo aquele que sexualiza mulheres o tempo todo, independentemente de ser no ambiente profissional ou pessoal.

Passamos anos ouvindo as mais diferentes desculpas para justificar comportamentos como esse, e no caso de Kate, o que ela mais ouviu dos homens como desculpa para este comportamento, incluindo a violência sexual que sofreu, é que "a culpa foi do isolamento". Contextualizando, Kate passou dois anos trabalhando em campos de extração de petróleo, local que os funcionários inclusive moravam em alojamentos nos próprios terrenos de atuação, longe de suas famílias, e por se tratar de um período em que os smartphones ainda sequer existiam e a internet era escassa, a comunicação com pessoas fora desse ambiente era bastante precária (e cara). 

Falando em precariedade, Kate também aponta inúmeros descasos com a segurança tanto dos trabalhadores desses campos, como também com os moradores das redondezas, principalmente pelo fato de que essas terras exploradas eram roubadas. E como se ainda não bastasse, a autora ainda ressalta na narrativa todos os problemas ambientais que este tipo de exploração promovia (e ainda promove), e que as empresas envolvidas nunca fizeram absolutamente nada para reverter a situação.

E o resultado disso? Além da violência sexual que poucas mulheres que se submetiam a esse trabalho enfrentavam, inúmeros profissionais com problemas psicológicos seríssimos, vícios em drogas e álcool, entre outros enfrentamentos desumanos, que aparentemente se agravam cada vez mais nos últimos tempos.

É uma leitura fácil pela sua interpretação, mas difícil por ser um tema pesado - mas necessário para ser debatido.

Você pode comprar Patos pelo meu link de afiliado na Amazon clicando aqui.

Eu fiz uma resenha em vídeo no meu Shorts, e você também pode conferir o mesmo vídeo no Instagram e TikTok (aproveita pra me seguir por lá também):



16 de ago. de 2026

 



Ao retomar a ideia de transformação, que neste livro é desenvolvida até seu ponto máximo, Édouard Louis dá continuidade ao projeto que o consolidou como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Dotado de uma voz sensível e cortante, neste romance, autor narra o processo de amadurecimento de Eddy Bellegueule, nascido na classe operária em uma pequena cidade no norte da França, até se transformar, ativamente, em Édouard Louis, escritor de sucesso internacional. Durante esse percurso de amadurecimento somos apresentados aos acontecimentos de sua infância e juventude, acompanhando de que maneira a distância entre Eddy/Édouard e sua família e amigos se faz cada vez mais presente.

Sinopse da editora



Escrevo porque acho que às vezes me arrependo, que às vezes me arrependo de ter me afastado do passado, às vezes não tenho certeza de que meus esforços tenham servido para alguma coisa. Às vezes penso que toda essa luta foi em vão e que fugindo lutei por uma felicidade que nunca obtive.

Conforme fui lendo este livro fui fazendo anotações e mais anotações a cada capítulo que eu me indignava mais e mais com as atitudes de Louis, seus pensamentos terríveis (a parte em que ele fala que não entendia porque a irmã tinha ficado triste por ter sido abusada, pois era algo que ele sonhava que acontece com ele me causou náuseas), mas ao chegar ao epílogo eu baixei a minha bola. Não por ter perdoado as atrocidades que tinha lido, mas por ter me feito refletir sobre várias coisas, vários aspectos e várias situações da minha própria vida.

Veja bem, essas reflexões não me levaram a entender as atitudes e pensamentos do autor, mas me fez entender onde o autor queria chegar nos mostrando a sua pior versão: muitas pessoas perdem tanto tempo da vida tentando se tornarem o que não são e se provarem para certas pessoas que não agregam em nada, que acabam se esquecendo não só das pessoas em volta que verdadeiramente importam, mas também de se tornarem alguém que elas mesmas se sentem confortáveis em ser. A importância que Eddy deu a muitas coisas rasas para o seu objetivo de "mudar" não mudou nada - nem sua condição financeira, nem tão pouco quem ele era de fato. 

Eddy continuou pobre mesmo levando uma vida social em meio à burguesia.
Eddy continuou escondendo de quem ele era de verdade mesmo não gostando de ser assim.
Eddy criticou os mais abastados mas fez de tudo para levar a vida como eles.

E ele precisou ir cada vez mais fundo na fuga de sua própria realidade e existência para entender que toda aquela "luta" não valia de nada.

O autor comprova pra mim algo que aprendi a algum tempo que é: se a gente não aprende a se amar, a se sentir confortável dentro da nossa existência, nada será suficiente - nenhum relacionamento, nenhum lugar, nenhuma amizade, absolutamente nada. Não importa quantas pessoas ele conheça, pra quantos lugares ele fuja.

Eu me sinto tão distante dos escritores que contam sua descoberta da literatura pelo amor às palavras e pela fascinação com a visão poética do mundo. Eu não sou como eles. Escrevia para existir.


Eu fiz um video bem legal lá no meu canal que cito Mudar: Método:


 
 ... e também fiz uma resenha só do livro no Shorts, mas também tem no Instagram e TikTok (aproveita para me seguir por lá também):





3 de ago. de 2026

 


Em As vacas não me olham mais na cara, romance de estreia de Dora Freind, conhecemos uma menina que observa o mundo com uma lucidez precoce e aprende a nomear a dor quando ainda não dispõe de palavras para isso. Numa cidadezinha rural marcada pela pobreza e pelo isolamento, a pequena narradora cresce entre a tensão familiar pautada pelo silêncio da mãe, misteriosamente emudecida após o parto, e as vacas de seu quintal, suas únicas companheiras. À medida que novos vizinhos ocupam e desocupam a casa ao lado, a menina sem nome se "gentifica", acumula palavras em vez de mugidos e vai deixando de ser bicho ao mesmo tempo em que dá de encontro com as descobertas da infância e as violências e fissuras do mundo adulto. Com rara precisão formal, Freind constrói uma história que contrasta a todo momento ingenuidade e lucidez, violência e delicadeza.

Espécie de prosa poética tomada por uma dicção infantil enternecedora, As vacas não me olham mais na cara é o tecido em que Freind constrói tanto um romance de formação quanto uma investigação sobre identidade, linguagem e amadurecimento feminino, uma história que transforma a infância em território de consciência.

Sinopse da editora

"Também fiquei pensando no que a Sra. Silvestre falou, que para o homem querer é tudo. Meu pai quis ir embora e foi. Deve ser fantástico ser homem".




Quem leu, amou e ficou com saudade de Carmen de “Se deus me chamar não vou” certamente verá muitas semelhanças entre este título e ao de Mariana Salomão Carrara (o Kindle até sugere o título de Salomão no final da leitura), pois é como se revisitássemos uma versão de Carmen que nasceu e cresceu no interior. Mas acompanhar o crescimento desta menina sem nome trará também o mesmo sentimento agridoce de conhecer uma história triste contada de uma maneira bem humorada.

A construção da personagem principal, que é também a nossa narradora, é preenchida de uma simplicidade e ingenuidade doce na mesma medida que é preocupante, e uma hora a preocupação que surge na nossa cabeça durante essa constatação infelizmente acontece (não vou elaborar para não dar spoiler, mas quem leu sabe do que eu tô falando).

Honestamente, eu acho que é um livro que trará sensações distintas dependendo do seu estado de espírito. Pode ser que você não encontre a graça na proposta da narrativa escolhida se estiver muito sensível, e pode ser também que você vá na onda da autora e perceba que em grande parte dos casos, é exatamente isso que acontece quando convivemos com a solidão enquanto estamos anestesiados (e protegidos) pelo nosso estado de ingenuidade. Mas se possível, é importante iniciar a leitura desagarrado de qualquer sentimento interno, para que a conclusão e mensagem desta leitura ofereça a resposta exata de como alguém que vive tudo o que foi escrito enxerga nesta fase da vida.

"É muito confuso isso de ser gente. Tem vezes que a coisa é boa e o olho chora, e tem hora que a coisa é ruim e a boca ri."
Você pode conferir a minha resenha de "Se deus me chamar não vou" clicando aqui.

Vídeo no youtube:


27 de jul. de 2026

 


Desde que o mundo é mundo o cinema, a literatura e o teatro andam de mãos dadas. Se nos primórdios os livros eram adaptados para os palcos, hoje os palcos e a sétima arte se dividem para fazer da literatura algo visível que antes só fazia parte do nosso imaginário depois de ler. E quando a gente pára para pensar que A Odisseia, cânticos atribuídos a Homero de quase 3000 anos, foram adaptados para o cinema como a superprodução mais cara no currículo de Christopher Nolan, um contraponto entre o antigo e o moderno se sobressai aos nossos olhos.

Era de se esperar que muitos estranhariam a presença de armaduras, barcos e linguajar diferentes da Grécia Antiga, mas a liberdade que um cineasta tem para adaptar uma obra faz com que essas diferenças se tornem uma licença poética, porque como o próprio verbo diz, ADAPTAR não é copiar, é encaixar uma história em uma visão ou formato diferente. Uma coisa que entendi quando comecei a estudar cinema, é que se a nossa pretensão como espectador  é encontrar uma exata cópia de um livro em uma adaptação, é aconselhável fazer a releitura da obra original, e não assistir a um filme. 

Dito isso, quem vai ao cinema de coração aberto para assistir A Odisseia se depara com uma adaptação que faz jus a cada centavo de seu investimento: a presença ilustre de um elenco de peso e escolhido a dedo, a ausência de CGI e uso contínuo de efeitos práticos, a humanização de seres mitológicos e Deuses representados por forças da natureza e ambientações reais que dispensam o uso da tela verde deixaram o projeto apoteótico. Uma história contada de maneira não linear, que conta com flashbacks longos de momentos impactantes e reveladores, e uma tensão levada até a última cena do filme que ganha ainda mais impacto com a soma dessa narrativa, com uma trilha sonora densa e imersiva e atuações que te levam para caminhos que te confundem de maneira positiva para a sua experiência.

Quanto ao elenco, Matt Damon é aquele ator que muitos subestimam, mas que nunca deixou a desejar naquilo que se propõe a fazer. Muitos falam (mal) também da atuação de Tom Holland, mas como Telêmaco, um rapaz que cresceu perdido entre a história do pai e a responsabilidade que um dia teria que assumir sem direção alguma, só configurou o que espera do próprio personagem. A cerne de todos que marcam presença nessa história foi tirada de maneira brilhante por um elenco que caminhou entre a transparência de seus papéis com a responsabilidade de dar conta de uma história tão antiga, tradicional e importante para a literatura.



Falar de Nolan acaba se tornando dispensável, mas nunca dispenso um comentário que seja, rs. Todas as vezes que assisto uma entrevista do diretor em campanhas de divulgação de seus filmes, é como se eu assistisse uma aula gentil e genuína de como fazer cinema nos tempos modernos, mas sem abusar de tantas tecnologias que hoje temos em nossas mãos para ainda fazer o bom e velho cinema funcional. Ele se tornou um dos meus diretores favoritos porque independentemente da crítica a cada um de seus lançamentos, é como se eu tivesse a oportunidade de aprender mais e mais sobre essa arte que cresci consumindo e me apaixonando cada vez mais. E essa aula vai além do habitual que vemos em sala de aula como alunos de audiovisual: não é somente sobre uso de cores, de cortes, de cenários e construção de narrativa e roteiro, é como juntar tudo isso e fazer algo bonito, convincente e espetacular aos nossos olhos.

O trabalho do Nolan não se firma com o que ele fez e sim da maneira que ele fez. Os detalhes que as vezes podem parecer exagerado ou dispensável na verdade são aqueles famosos detalhes que fazem toda a diferença. Para mim, assistir aos seus filmes é entender a cabeça de alguém que enxerga tudo de maneira grandiosa, mas que não perde o fio da meada como muitas das vezes acabamos encontrando em algum outro filme. E que sorte tivemos de encontrar estúdios que acreditaram nas ideias desse homem! 

Por fim, como frisei em todos os vídeos sobre A Odisseia que postei em minhas redes, não temos uma sala IMAX raiz nos cinemas brasileiros, mas se sua cidade possui alguma sala XD, vale encarar uma sessão nela para assistir A Odisseia e ter uma experiência além do que uma sala tradicional te proporcionaria. É um filme forte, lindo, com um som poderoso que te faz imergir a cada cena (principalmente na caverna do Ciclope, ali o patamar sobe a níveis de outro mundo). Permita-se encarar uma adaptação que vai além do padrão, mas que entende que a linguagem atual merece algumas mudanças pequenas de percurso. Vale cada minuto do seu tempo.

Neste video eu faço um resumão de todas as curiosidades sobre A Odisseia que encontrei nas entrevistas do Nolan e elenco durante a divulgação do filme:



11 de jul. de 2026

 




A Dra. Briana Ortiz é uma mulher forte, mas está muito cansada. Ela acabou de se divorciar, seu irmão precisa de um transplante de rim... e sabe a promoção no trabalho que ela estava esperando? Pelo jeito, é o novato intrometido quem vai conseguir o cargo.

Jacob Maddox sabe que já ganhou a antipatia de Briana. Por isso, decide se explicar de forma incomum: numa carta escrita com caneta-tinteiro e papel especial. Bem, parece que, no fim das contas, ele não é tão ruim assim.

Briana começa a trocar cartas com Jacob e passa a conhecer melhor o médico caladão que prefere uma vida sossegada a grandes eventos sociais. De repente, eles estão almoçando juntos e debatendo as vantagens de se ganhar um pônei e percebem que têm muito em comum, desde o encanto pela natureza até o gosto por histórias bizarras de hospital.

Quando Jacob decide dar a Briana o melhor presente imaginável, ela se pergunta como poderá resistir a esse simpático médico… especialmente quando ele pede um favor que ela não pode recusar.

Sinopse da editora

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Eu tenho muita, mas muita preguiça de histórias que orbitam entre dois personagens adultos que não se comunicam direito. Quando é um livro de jovens adultos até entendo, mas quando temos duas pessoas com quase 40 anos nas costas que ficam na base do achismo ao invés de se comunicar um com o outro eu acho muita palhaçada.

Dito isso, Para sempre seu traz um tema de grande peso para esta história, que é a doação de órgãos e a importância da terapia na vida de qualquer ser humano que vive nessa sociedade contemporânea maluca que temos hoje. Abby Jimenez trouxe a sua própria experiência como paciente em tratamento de insuficiência renal para o seu livro, e paralelamente ao desenvolvimento da obra, também caprichou bastante no desenvolvimento dos personagens.

Mas acho que uma coisa que ajuda e atrapalha ao mesmo tempo a escrita da autora é o excesso de reflexões dos personagens. É muito importante sim desenvolver a trama, principalmente dos protagonistas, com os pensamentos fluídos a respeito dos acontecimentos do presente, passado e o que esperar do futuro sim, aliás, tem autor que peca justamente por não oferecer ao leitor este tipo de aproximação, mas nos 3 livros que li de Jimenez ela dá uma bela extrapolada, deixando a leitura repetitiva e um tanto quanto cansativa. Teve momentos em que bati uma leitura dinâmica ali porque o saco já tinha estourado mesmo.

Apesar disso, a história é bem gostosinha, os personagens tem uma química muito convincente e bem construída, e fiquei torcendo para que a autora não estragasse o livro com um plot horroroso como fez em Apenas amigos.


Outras obras da autora que já resenhei:

30 de jun. de 2026

 




Depois de uma tempestade catastrófica, Cora sai de casa com Maia, sua filha de nove anos, para registrar o filho recém-nascido. Seu marido, Gordon, um respeitado médico na cidade, mas uma presença aterrorizante e controladora em casa, quer que o filho receba seu nome, mantendo assim a tradição de sua família. Mas, quando a funcionária do cartório pergunta a Cora que nome quer dar ao bebê, ela hesita...

Sete anos depois, o filho, que recebeu o nome de Bear a pedido da irmã, encara uma catástrofe muito mais terrível que a tempestade do dia anterior ao registro de seu nascimento. Ou será que ele se chama Julian, nome escolhido por Cora, convencida de que isso o libertaria de toda a ligação com o pai cruel? Ou, quem sabe, seu nome seja Gordon, tendo herdado do pai o nome e a brutalidade?

Esta é a história de Bear, Julian e Gordon, três versões de uma vida definida por uma simples escolha com todas as ramificações que ela pode desencadear. Esta é a história de uma família e de um amor capaz de perdurar apesar do que o destino reserva.

Com uma prosa elaborada, Os nomes explora as dolorosas reações em cadeia de uma decisão, os problemas que unem uma família e as possibilidades de tomar as rédeas da própria vida. Com sensibilidade e profundidade excepcionais, Florence Knapp nos envolve em uma história contada sob o prisma dos vários caminhos da vida, considerando quão singular é cada alternativa. Com uma estrutura brilhante, uma escrita instigante e uma enorme carga emocional, Os nomes já nasce um clássico moderno.

Sinopse da editora

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"- Porque é tão importante assim? Pro papai? O negócio do nome igual?
A vontade de Cora é dizer que é importante porque tem uns homens grandes que se sentem pequenos por dentro. Porque alguns deles, como o pai de Gordon, levam a vida certos de que são tão superiores que acham que os filhos e os filhos dos filhos devem ser todos ser feitos em homenagem a eles. Porque as vezes a necessidade dessas pessoas de agradar as gerações passadas é maior do que a de amar as futuras"


Essa frase logo no primeiro capítulo do livro já resume toda a essência de sua mensagem, que para mim, é disparado o livro do ano, mesmo que ainda 2026 esteja longe de acabar. Fazia muito tempo que eu não me sentia tão conectada com uma história, a ponto de eu sequer sentir o tempo passar emendando um longo capítulo no outro, porque Florence Knapp consegue destrinchar todos os seus personagens em tantas camadas peculiares e importantes nesse seu livro de estreia que eu não quero nem ver o quão bombástico e maravilhoso será a sua próxima obra.

A autora nos entregou uma ficção tão baseada na verdade que é impossível não sentir empatia por essa família vítima de um provedor violento, controlador e manipulador. Não existe uma unidade de palavra que romantize todas as problemáticas apresentadas nessa história - só encontramos uma dura realidade que infelizmente compõe uma estatística avassaladora na vida real: mulheres que vivem com medo, que perdem o precioso tempo da vida, e muitas vezes perdem até a vida porque são forçadas a acreditar que não existe saída para uma realidade como essa, principalmente quando o marido usa os filhos para desencorajar a mulher a fugir.

O paralelo entre 3 realidades distintas dessa família baseadas nas escolhas da mãe ao registrar o nome do filho não passeia pela simplicidade da atitude escolhida como gancho para a história. A principio pode parecer qualquer coisa relacionada a numerologia, significado de nomes, mas acredite, este é somente um subtexto para escancarar que muitas das vezes a violência doméstica é realmente camuflada por um pensamento que a mulher sempre carrega quando passa por isso: "será que EU estou exagerando?"

É importante frisar que para mostrar a culpa que mulheres carregam sem correr o risco de cair na romantização inconsciente, Floresce caminha justamente pela simplicidade da narrativa para não ter distrações que tirem o foco da mensagem, mantendo sempre o filho mais novo como um termômetro das 3 realidades, justamente para não deixar em hipótese alguma o leitor subentender erroneamente que Cora carregava uma culpa que realmente era dela. Como ela faz isso? Mostrando como o Gordon inventava histórias sobre a mãe para ganhar a atenção do pai, os esforços da mãe de Cora em todas as realidades para salvar a filha, de alguma maneira, o quanto Maia se sentia responsável desde a infância de salvar a existência da mãe, entre outras nuances dos personagens em todas as 3 realidades apresentadas.

É um livro avassalador, reflexivo, denso, poderoso, cru e altamente real que merece todos os aplausos que anda recebendo desde abril de 2026.


Tem resenha mais completinha ainda no meu canal do Youtube:


17 de jun. de 2026

 




Depois de fazer uma aposta e conhecer uma cabrita de pijama, o mundo aparentemente perfeito de Alexis Montgomery virou de cabeça para baixo. A causa: Daniel Grant, um carpinteiro sexy dez anos mais jovem que ela – o completo oposto da sofisticada mulher da cidade grande. Ainda assim, a química entre eles é inegável.

Parte de uma família rica de renomados cirurgiões, Alexis não está interessada em glória e fama. Ela está feliz com sua profissão de médica socorrista e não deseja perpetuar o legado dos pais. E, a cada minuto que passa com Daniel em sua cidadezinha, ela descobre o que realmente importa.

Porém, deixar que o relacionamento deles se torne algo mais do que apenas uma aventura significaria dar as costas para sua família e abandonar a oportunidade de ajudar milhares de pessoas.

Permitir que Daniel faça parte de seu mundo é impossível, mas ela também não quer desistir da felicidade que encontrou nos braços dele. Com tantas diferenças entre eles, como Alexis pode escolher entre seus dois universos?

Sinopse da editora

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Minha primeira experiência com a Abby Jimenez foi tenebrosa - li “apenas amigos” e achei um livro enfadonho, com personagens horrorosos, um plot terrível e um desenrolar sofrível, mas “parte do seu mundo” me fez entender porque essa autora é tão querida, porque definitivamente é um livro de muito mais qualidade em diferentes aspectos.

Alexis e Daniel são personagens muito bem construídos e com uma evolução bastante prazeirosa de acompanhar. Adultos que mesmo vivendo pela primeira vez experiências incomuns para a sua realidade, agem ainda como adultos. Eles são rodeados por pessoas que nos despertam diferentes sentimentos, desde vontade de arremessar uma banana na cara até dar um abraço tamanha a empatia. É uma história que por mais que seja recheada de páginas e páginas de reflexões dos personagens (já que o livro é narrado em primeira pessoa), não te cansa. É assim que uma autora ganha seu público cativo.

A única ressalva que tenho a fazer para esse livro é que eu to cansada de ler autoras MULHERES que constroem personagens MULHERES sendo as covardes da relação, porque a gente bem sabe muito bem quem costuma ser os covardes nesses casos. Alexis, uma marmanja de quase 40 anos que ainda permitia que os pais decidissem pela sua própria vida foi demais pra mim. Aqui a Bri foi RAINHA de ter acordado a amiga pra cuspir.

No mais, é um livro que entrega o que promete, é um clichezão bem gostosinho de ler e traz o abuso psicológico como tema sem banalizar nem romantizar.

Outros livros que li da autora:

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13 de jun. de 2026

 


Tova, uma viúva septuagenária em luto. Marcellus, um polvo-gigante-do-Pacífico que vive em um aquário. Um ensaio sobre como a solidão pode ser transformada e superada com o toque sutil de outra criatura. “Uma cativante e sensível obra de estreia sobre a sensação de ter o amor roubado de si, apenas para reencontrá-lo no lugar mais inesperado… Memorável e delicado.” ― Washington Post “Cada protagonista é profundamente humano, com falhas e excentricidades desenvolvidas com cuidado. Mas o que deixa o romance de Van Pelt mais charmoso e divertido é a amizade carinhosa entre espécies e as formas como Tova e Marcellus tornam um ao outro mais extraordinários e brilhantes.” ― BookPage “Para além da amizade inesperada, o romance de estreia traz uma reflexão completamente original acerca da perda e dos laços que nos motivam a seguir em frente.”

Sinopse da editora



Eu amo embarcar em histórias que dá vontade de viver em um determinado lugar, de conhecer personagens que sequer existem, que nos leva a um sentimento de empatia e compaixão em níveis inimagináveis, e fazia um certo tempo que não sentia tudo isso lendo um livro como foi com "Criaturas extraordinariamente brilhantes". Que livro bom! O filme então... nem se fala! Mesmo com muitas diferenças entre a obra original e a adaptada, ambas levam para uma mesma conclusão, mesmo que seguindo alguns cursos diferentes.

No livro achei que a narrativa conduziu mais o foco no receio de Tova de envelhecer sem nenhuma cia, mesmo sendo rodeada de pessoas que nutriam um enorme e genuíno carinho por ela. Marcellus, por sua vez, era um polvo tão observador quanto no filme, porém no livro ele era um observador mais contemplativo com o comportamento humano em um contexto geral. E Cameron conseguiu ser na obra original um sujeito mais genioso e menos empático. O filme não deixa esse receio de Tova de lado, mas ter focado a narrativa mais na construção da amizade entre Tova e Cameron deixou tudo mais leve, delicado e gentil com a história de ambos. 

Acompanhar a rotina toda doutrinada da Tova nos leva a um sentimento muito aconchegante - de lembrar de uma mãe, de uma avó ou de uma tia com o mesmo jeitinho. Quem nunca conheceu uma senhorinha pequenininha, mas cheia de energia, agilidade e força, na mesma medida que consegue dizer qualquer coisa que pode parecer dura, mas mais assemelha-se a um colo, um cuidado, um acolhimento delicioso de receber? 

E também é impossível não torcer por Cameron, seja ele a versão literária ou do cinematográfica, para que tudo o que dá errado em sua vida seja recompensado por uma notícia boa, um acontecimento dando certo, algo que finalmente arranque um sorriso do seu rosto e lhe devolva a vontade de conquistar alguma coisa na vida.

Enfim, essa é uma história que vou carregar no meu coração, porque terminei a leitura abraçando meu Kindle, terminei o filme com o coração quentinho, pois se tornou meu filme conforto, aquele que a gente coloca pra assistir de novo em um dia ruim, em uma TPM que a gente só quer um lugar quentinho pra ficar quieta ou em uma noite de insônia que a gente precisa de algo pra distrair a cabeça - uma história sobre superação sem romantizar nada, sobre se sentir pertencente à algum lugar, à uma comunidade, de se permitir ser acolhida, querida e amada, é sobre buscar a sua história, sua identidade, e principalmente, sobre entender que a vida pode seguir sem precisar apagar quem nos deixou marcas insuperáveis. 


Resenha completa no meu canal do Youtube:



28 de mai. de 2026

 



Kristen é uma mulher prática. Não faz drama nem joguinhos e não tem paciência para caras que não entendem seu humor afiado. É muito sincera, mas guarda um grande segredo: aos 24 anos, terá que passar por um procedimento médico que a impedirá de engravidar para sempre.

Por isso, planejar o casamento da melhor amiga é uma experiência agridoce – especialmente quando ela conhece o padrinho, Josh, um bombeiro sexy do tipo que estamparia calendários. Josh é fofo, engraçado, não se ofende com o sarcasmo dela… e ainda tem malditas covinhas. Até Dublê Mike, o cachorrinho invocado de Kristen, o adora.

O único problema é que Josh cresceu numa família enorme, com seis irmãs, e também quer ter muitos filhos um dia. Kristen sabe que Josh estaria melhor com outra pessoa. Ela não quer se envolver romanticamente, então propõe uma amizade colorida. Mas até quando seu coração manterá esse acordo?

Livro de estreia de Abby Jimenez, Apenas amigos? nos faz rir e chorar enquanto retrata a infertilidade e a perda de um jeito irreverente, sensível e apaixonante.

Sinopse da editora

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Passei anos ouvindo falar muito bem de Abby Jimenez e encontrei “Apenas amigos” recentemente disponível no Kindle Unlimited, e foi assim que resolvi conhecer o trabalho da autora e me deparei com um dos livros mais enfadonhos que já li na vida. 

A começar pela sinopse mentirosa que você possivelmente leu aí logo acima. Kristen não é uma mulher NADA prática. Ela faz drama e joguinhos SIM, e se ela não tem paciência para caras que não entendem humor afiado, eu que não tive paciência alguma para essa personalidade construída pela autora. Pensa em uma protagonista INSUPORTÁVEL, e que obviamente tem ali suas problemáticas que seriam solucionadas com uma simples e madura conversa, mas se tem outra coisa que não tenho paciência alguma, é para livro que inventa um problema qualquer só para ter história, sendo que existem no mundo milhares de problemas mais convincentes para se colocar em uma história.

Agora vamos falar de Josh, um cara que gosta dela e que eu teria medo de tão sufocante. Um personagem que é fofo até a página 2, porque além de ter 0 amor próprio, também é um cara que não dá espaço. Me incomoda autoras romantizarem tantas problemáticas neste tipo de comportamento, principalmente quando o cara quer fazer tudo por uma mulher como se ela fosse uma incapaz.


E para finalizar, este livro tem um plot tão desnecessário que pesa completamente o clima. Você lê aquele desfecho se perguntando o tempo todo "PRA QUE? POR QUE?". Fora que o final da história é tão corrido que te faz questionar o motivo pelo qual você decidiu perder seu precioso tempo lendo aquilo.

Minha nota pra esse livro é dó


Outros livros que resenhei da autora:

19 de mai. de 2026

 



Apesar de parecerem viver vidas opostas, Winona e Lucille têm mais em comum do que muitos acreditam: se sentem impotentes, injustiçadas e traídas por quem deveria protegê-las.

Lucille trabalha há anos na lanchonete com a mãe, sempre pensando na nova vida que tanto deseja quando se formar no ensino médio. Mas, sempre que junta dinheiro para esse sonho, precisa pagar uma conta ou consertar algo… geralmente culpa do irmão mais velho, o protegido da mãe que vive arrumando desculpas para não trabalhar e que, além de não ajudar, começou a traficar debaixo do teto delas.

Já Winona vive numa mansão e tem roupas, acessórios e carros de luxo. Entretanto, tudo é escolhido e controlado pelo pai desde que a mãe dela morreu, dez anos antes. Winona não pode comer na hora errada, falar na hora errada nem pensar quando não deve. Seu pai é calculista e conhece tudo e todos, fechando um cerco sufocante ao redor da filha.

Numa noite, elas percebem que não podem mais esperar a formatura para começar a viver a vida que tanto sonham. Munidas apenas com um plano grandioso para escapar da cidadezinha do interior de uma vez por todas, elas só precisam arrumar alguns — muitos — dólares… e um conversível vermelho também não seria má ideia.

Quando Winona e Lucille finalmente dão um basta, despejam toda a fúria que sentem na estrada, a caminho de uma vida nova.

Sinopse da editora

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A volta de Emily Henry, dessa vez acompanhada por Brittany Cavallaro traz uma história bem estilo Thelma & Louise que só vai funcionar se você se desprender de qualquer apego pela realidade - é uma história pra você se divertir, terminando cada capítulo com um “até parece”, bem o que a gente fazia com os filmes dos anos 1980 e 90 mesmo.

Enquanto Winona quer sair de casa para fugir da violência e controle do pai famoso, Lucille tem o mesmo objetivo com o intuito de se desvincular da vida caótica de sua família. A amizade das duas nasceu depois que ambas sofreram violência doméstica, e viram uma na outra a confiança e acolhimento que nunca tiveram em outra pessoa na vida.

Embora isso tenha um peso bastante denso para a história, não espere nenhuma reflexão - é uma trama única e exclusivamente para você se deixar levar na aventura de duas adolescentes que estão fazendo uma besteira atrás da outra ao longo dessa jornada. E tá tudo bem também, nem todo livro precisa ter um propósito profundo, e tem dias que a gente precisa mesmo é de uma trama como essa para dar umas risadas e se esquecer dos inúmeros problemas que a vida real já nos proporciona.

A única coisa que me incomodou um pouco no início do livro, e que percebi que no decorrer dos capítulos as autoras deram uma segurada, foi o uso excessivo da palavra "literalmente", que mesmo usada corretamente dessa vez (americanos têm o costume de usar literalmente pra tudo como se fosse vírgula e de forma errada, e infelizmente os brasileiros estão pegando essa mesma mania), ainda tenho minhas limitações em aceitar todas as frases com a presença dela como se fosse "bom dia". 

Eu me diverti bastante, foi uma leitura na hora certa (precisava me entreter com algo despretensioso mesmo), e sugiro que você não crie expectativa nenhuma durante a sua leitura - assim você se divertirá tanto quanto eu.

Agora vou assistir Thelma & Louise para fazer um comparativo no meu próximo vídeo do Youtube. Atualizo esse post logo mais com o link aqui embaixo.

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Outros livros de Emily Henry que já resenhei:



27 de abr. de 2026






Diane sempre sonhou com pouco: um marido, dois filhos, um trabalho que lhe fizesse sentido — mais do que jamais se permitiu desejar. Mas, no dia em que Seb a deixa, seu mundo desaba. Entorpecida pela dor, ela não percebe o outro silêncio que cresce ao seu redor: no quarto em frente, o riso de Lou se apaga.

Aos dezesseis anos, Lou sofre o tumulto da adolescência e o impacto do primeiro amor perdido, uma perda que lhe arranca mais do que lágrimas. Quando Diane finalmente se dá conta, está disposta a tudo para resgatar a filha, mesmo que isso signifique revisitar um passado do qual tentou escapar.

Mãe e filha caminham sobre um fio tênue, entre o que foi e o que pode ser. Sob seus passos, o turbilhão da vida ruge, e ameaça arrastar consigo as suas horas mais frágeis.

Sinopse da editora

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"Acho que é parte do pacote. Nasci com o kit "sentir tudo mais forte". A tristeza, a alegria, mas também os sons e a dor física. Tenho sentidos de super-herói. Ouço o menor barulho e fico presa dentro dele. Sempre abaixo o volume da música ambiente e me sinto perdida quando várias conversas estão rolando ao mesmo tempo. Sou capaz de matar alguém mastigando de boca aberta perto do meu ouvido. Barulho de motor me impede de dormir. Em casa, à noite, uso protetores auriculares para não ouvir a vida dos vizinhos. Aqui, descobri o silêncio. Também sou sensível à luz. Uso óculos de sol, senão meus olhos ardem. Filmes em 3D  me deixam enjoada e alguns jogos de vídeo game me causam vertigem."





Mais um livro de Virginie Grimaldi finalizado, sempre suspirando com o tamanho da delicadeza que essa mulher tem de contar histórias, que te prendem do começo ao fim, cada livro a sua maneira, cada história de um jeito que te toca em um lugar diferente.

As horas frágeis vem de um lugar muito importante na vida da autora: ela conta que todos os sentimentos, os barulhos do mundo altos demais escutados por Lou fizeram parte também da sua realidade na juventude. Eu sei bem como é esse volume, e ele foge totalmente do nosso controle em regular a intensidade dentro da gente.

E justamente por me identificar muito com o tema que senti falta de algo. Um aprofundamento melhor dos personagens, seja da protagonista, seja dos coadjuvantes que cercaram a Lou em grande parte da história.

Achei o livro meio corrido - não senti que as histórias da Diane e da Lou foram construídas de maneira convincente. Senti falta de ter mais conexão com as personagens: de conhecer mais a fundo a personalidade da Diane e o processo de terapia da Lou de maneira mais detalhada. Se a autora tivesse se aprofundado no processo terapeutico de Lou, o livro teria um acolhimento ainda maior para quem se identifica com a personagem. Sei que isso exige estudo com profissionais qualificados, mas seria uma coisa que Virginie tiraria de letra. 

Queria ter visto mais na juventude da Diane. Senti que a autora ficou preocupada demais em construir o plot, e por isso foi necessário esconder muitas coisas que não entregasse a surpresa que ela queria entregar. Mas o foco na narrativa deixou o enredo um pouco precário, e é justamente aqui que jogo a culpa por não ter me conectado com ela.

A Lou também merecia um tempo a mais de contato com seus novos amigos para justificar tamanho apego. Podemos encarar a identificação dela com os outros como a justificativa para esta conexão instantânea, mas, para mim, não foi trabalhada o suficiente para me convencer. 

Enfim, eu gostei, mas não amei. Esse é o único livro da autora que não dei 5 estrelas (mas dei 4).


Video no Youtube:

9 de abr. de 2026

 


Depois do arrebatador "Se deus me chamar não vou", Mariana retoma seu jorro neurótico, humano e delicioso contando agora a história da septuagenária Aurora, encontrada desmemoriada e descalça na beira da estrada e procurando por uma certa Camila. Para uma amnésica, Aurora recorda-se de muito: da mãe que escovava seus cabelos até parecerem "uma peruca eletrizada"; do seu ato falho trágico religioso, de quando rezava na infância e dizia "agora é a hora da nossa morte amém"; dos anos em que deu aula de português em uma escola de riquinhos; da sua covardia perante a ditadura militar: "este país insiste que temos de arriscar a nossa própria vida, parece que esquece que tudo que temos é essa miséria da própria vida"; de um carnaval em que tentou perder a virgindade com um jovem brocha vestido de bebê; de um amante midiático que falava um português impecável, mas também sabia beber e socializar em boteco vagabundo e, sobretudo, das muitas mortes da filha Camila, sempre alternadas com momentos solares na companhia da melhor amiga de infância: "Camila ficou sendo minha melhor amiga desde o momento que olhou pra trás e perguntou se encharcado era com ch ou x". Seriam essas lembranças reais ou ela decorou dos muitos livros que leu, protegida, dentro de casa, dos infinitos perigos que existem lá fora? Camila, afinal, é a filha morta (que morreu de suicídio, de picada de escorpião, de acidente na estrada, de atropelamento de boi, de comida muito quente na cabeça, de fungo de pombo, de queda de coco, de cambalhota ou pirueta entre duas camas) ou a bela amiga – "muito melhor do que ser a mulher bonita é ser a amiga dela, a quem ninguém lembrará de examinar como envelheceram as coxas ou os joelhos, e que pode acompanhar com doçura os caminhos da decrepitude…"? Poderia uma mãe, tão obsessiva com a finitude humana e tão obliterada pela possibilidade da morte de uma filha ("não se pega o bebê minúsculo sem tatear com os dedos os espaços vagos, suspira-se a moleira, lamenta-se a lentidão geográfica das suas placas…") recordar qualquer coisa sobre a vida dela? Aurora não sabe sequer se teve mesmo um bebê. Pergunta-se, ao tocar a barriga, se alguma vez foi capaz de gerar um filho ali dentro, "não ter um filho é praticamente certificar-se da ausência de tragédias". Aqui a morte é temida, repetida, imaginada, exagerada, esmiuçada e listada de tantas formas que é quase possível rir dela ou- eu acredito que Mariana tenha conseguido esse feito- vencê-la.

Sinopse da editora

"quando ouvia adultos rezando eu me detinha particularmente na passagem que eu escutava errado, Agora é a hora de nossa morte amém, por isso eu tinha tanto medo que rezassem perto de mim"

 

Quando peguei este livro para ler logo após a leitura de Elena sabe, eu não imaginava que estava emendando dois livros com a mesma premissa: ambos mostram a realidade de uma pessoa idosa enfrentando uma doença degenerativa. Mas a diferença da escrita de Mariana Salomão Carrara é gritante - é o que chamamos hoje de alguém que não pesa o clima.

Não que o tema não deva ter clima pesado - não faz nem sentido esperar algo desse tipo - mas é importante frisar que a nossa autora brasileira tem um relacionamento diferente com as palavras, a ponto de transformar a narrativa em algo mais gentil, e consequentemente, faz com que o leitor tenha vontade de devorar mais rapidamente o livro.

Por ter sentido uma densidade muito forte em Elena sabe, infelizmente eu demorei mais para ler "é sempre a hora da nossa morte amém" e isso não foi culpa do livro. Foi um pouco de ressaca com o baque que a leitura anterior promoveu em meus sentimentos somado também ao meu momento de vida (impossível de me concentrar por muito tempo em algo) que atrasou meu devoramento natural, e mesmo diante de uma temporada péssima minha como leitora, foi praticamente impossível não notar o quanto a autora, assim como fez em "se deus me chamar não vou", tem o dom de dar leveza ao que encaramos como tragédia.

Porque no final das contas, as pessoas que levam exatamente o tipo de vida narrada nas histórias dela merecem isso: leveza.

Depois que Aurora é encontrada desnorteada na beira da estrada procurando por Camila, ela é levada para um abrigo e lá ela vai contar a sua história para Rosa, a assistente social que tem como missão encontrar a família de Aurora. A cada capítulo, a protagonista relata uma versão diferente de sua vida, sempre tendo os mesmos personagens: Antônio, o marido (ou ex), Camila, sua filha ou amiga, e os cachorros Perdoai e Ofendido. Em cada capítulo sua filha morre de algo diferente, memórias de sua amiga reacendem, mas a frustração em seu casamento sempre se faz presente. E cada vez mais que Aurora se força a lembrar, mais suas lembranças se tornam confusas - isso aconteceu mesmo? Qual versão dessas mortes é real? Existem duas Camilas ou só uma?

Ao fim nós descobrimos junto com Rosa a versão real da história de Aurora, mas não antes de passar por toda a tempestuosidade que suas memórias confusas causam em sua cabeça. E por mais que a leitura possa parecer subjetiva, a realidade é só uma - Mariana conta uma história através de Aurora justamente para que possamos mergulhar na realidade da protagonista, sentir na pele as dificuldades de sua confusão, enquanto a gente se dá conta que a tragédia é sofrida por quem cerca Aurora, e nem tanto por ela mesma.

Essa coisa que eu jamais vou compreender que é abreviar de propósito aquilo que já quase não dura, e que me é tão custoso manter.

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Outros livros que li da autora


Resenha em vídeo:


17 de fev. de 2026

 



Uma obra única que entrelaça uma pitada de romance policial com histórias íntimas de moralidade e da busca pela liberdade individual. Pouco depois de Rita aparecer morta na igreja que costumava frequentar, a investigação do que teria ocorrido se dá por encerrada. Sua mãe Elena é a única que não desiste de esclarecer o crime. Mas, acometida pela doença de Parkinson, seu tempo é contado em comprimidos, sendo a menos indicada a encabeçar a busca por um assassino. Uma penosa viagem dos subúrbios à capital argentina e uma conversa reveladora guiam a trama deste finalista do International Booker Prize, um romance íntimo e crítico no qual o corpo feminino é o verdadeiro protagonista. Uma das principais vozes contemporâneas da Argentina, e a terceira autora mais traduzida do país, junto com Borges e Cortázar, Claudia Piñeiro expõe as facetas ocultas do autoritarismo e da hipocrisia que podem determinar os rumos de uma vida.

Sinopse da editora

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Eu terminei esse livro aos prantos e eu nem imaginava que ele tivesse tamanha sensibilidade mesmo escrito em palavras duras.

Elena sabe é um exercício de empatia com o leitor: conseguimos vestir o sapato do outro mesmo sabendo que essa pessoa é um ser humano difícil de lidar? O livro em si não é sobre a história de uma mãe em busca da verdade sobre a morte de sua filha - isso é somente um pano de fundo para nos mostrar todas as limitações de quem sofre de uma doença tão feroz como o parkinson e precisa se virar sozinha para fazer coisas que, pra quem é saudável, são tão simples que são até feitas por osmose.

É curioso como a autora escreve no mesmo ritmo de Elena: a imprecisão de quem sofre de parkinson, a lentidão de quem possui movimentos limitados, de como funciona a cabeça de uma pessoa que luta para não se esquecer de fazer coisas básicas, ao mesmo tempo que o fluxo de pensamento se atropela entre o que precisa ser feito com as lembranças de Rita.

Eu senti muita pena de Elena, não só pela sua doença, mas também por ter tido uma vida tão dura que justificava inclusive a sua desconfiança com tudo. A realidade é que é difícil esperar afeto de alguém que provavelmente sequer o recebeu um dia.

O livro foi adaptado para o audiovisual e está disponível na Netflix.


Meu video sobre o livro e o filme Elena sabe:


29 de jan. de 2026

 



Petra Rose já arrebatou multidões e dominou as listas de livros mais vendidos. Mas, após a reação devastadora a uma adaptação de uma de suas obras, ela perdeu tudo: credibilidade, público e até a vontade de escrever. O ódio viral da internet a transformou em alvo fácil, e cada página em branco é mais um lembrete de que sua carreira pode estar chegando ao fim.

Desesperada para se reerguer, Petra se refugia em uma cabana à beira de um lago, determinada a concluir o suspense que pode salvar sua vida profissional. Só que ela não vai ficar sozinha por muito tempo.

Nathaniel Saint, um detetive misterioso, surge com notícias perturbadoras ― o que desperta em Petra uma criatividade feroz, quase obsessiva. Conforme suas palavras ganham vida, a fronteira entre ficção e realidade começa a se dissolver. O personagem escrito por ela não apenas se assemelha demais com o homem que a inspira… como também parece estar assumindo o controle da história.

Cada conversa, cada toque, cada segredo compartilhado intensifica a conexão entre eles. Mas a inspiração tem um preço, e Petra logo percebe que o caos que trouxe de volta sua voz pode também destruí-la.

O que é real? O que é invenção? E até onde uma escritora está disposta a ir para recuperar a própria narrativa?

Sinopse da editora




É impressionante como a coho é uma sonsa. Antes de começar o livro ela suplica para o leitor não achar que a história é sobre ela, mas impossível não ser. Até a treta que rolou entre os atores de "É assim que acaba" aparece nesse livro. A entrevista durante a turnê dela, assim como o capitulo de meia hora da Petra em uma live são puros desabafos da autora - o que ela gostaria de ter ouvido quando estava no meio dessas polêmicas, as expectativas e anseios dela em relação aos seus leitores, e especialmente nesta parte final, o que ela realmente queria explicar e não teve culhão de fazer, então meteu tudo em um livro.

Teria sido muito mais honesto se ela não tivesse escrito esse prefácio, porque o problema não é ela usar a ficção para romantizar a versão dela dos fatos. O problema mesmo é que o público detesta gente sonsa. Logo, temos aí um lançamento com nota baíxissima nas principais plataformas de avaliação de livros, provando meu ponto.

Além desse livro ser exaustivo de ler, parecendo um cachorro correndo atrás do próprio rabo, o excesso de “contudo”, “no entanto” e “entretanto” dessa tradução é irritante demais. Se deixassem os inúmeros “but” que a autora coloca em sua escrita em inglês, acredito que ficaria menos notável (e irritante) a repetição.

A autora ao invés de se preocupar em criar toda essa conexão instantânea entre os personagens, se preocupou mais em desabafar suas dores, ai não deu pra comprar uma conexão que sequer foi construída.

Fora que a protagonista é uma pessoa pavorosa. Ela passa o livro todo fazendo merda e procurando um monte de desculpas para justificar cada atitude terrível que ela teve. No fim ela estava lá se lascando e a única reação que despertou em mim foi um sonoro “BEM FEITO”.

Enfim, esse livro é pavoroso. Acho que o pior da Colleen Hoover que eu já li na vida. E olha que ela tem muitos livros ruins, hein? Ela pegou um conto que escreveu para uma coletânea com outros autores em 2021 chamado One More Step e fez exatamente A MESMA COISA, mudando a Megan para Petra. Aí enfiou seus desabafos no meio e saiu essa bomba que eu não indico nem para meu inimigo.

Acho que essa foi a pá de cal que eu precisava para parar de ler de uma vez por todas essa autora.

Outros livros da Colleen Hoover que já resenhei (esse post envelheceu feito leite)

Compre Mulher em queda na Amazon (por sua conta em risco)

Falei mais sobre Mulher em queda em minhas redes sociais e também no meu canal do Youtube, neste video sobre as leituras de janeiro:


26 de jan. de 2026

 


Entre os dias 10 e 19 de novembro de 1919, Franz Kafka, insatisfeito com a fria recepção paterna diante do anúncio de seu noivado com Julie Wohryzek, escreveu ao pai, o comerciante judeu Hermann Kafka, uma longa carta – mais de cem páginas manuscritas. Kafka tinha então 36 anos, uma vida pessoal acanhada – nunca se casara ou constituíra família –, uma carreira mediana de funcionário burocrático e uma ambição literária ainda longe de estar realizada. Na carta, que nunca foi enviada ao destinatário original, Kafka põe a nu toda a sua mágoa em relação ao pai autoritário, que ele chama, alternadamente, de "tirano", de "regente", de "rei" e de "Deus". Além da carta fartamente anotada, a edição conta com um prefácio que explica fatos e circunstâncias relativas ao texto e à redação da carta, um glossário de expressões e nomes de pessoas citadas, uma cronologia biográfica de Kafka e a reprodução fac-símile de algumas páginas do documento.

Sinopse da editora


O título deste livro é bastante autoexplicativo, e entendendo que se trata de uma carta escrita ao pai do autor, e não um livro para nós leitores, fica mais fácil ainda se aprofundar em toda a densidade que Franz Kafka deposita nesse manuscrito. 

É um destrinchamento de toda mágoa cultivada ao pai ao longo de tantos anos, se sentindo incompreendido, não amado, invalidado, descredibilizado e desacreditado por meio de uma educação autoritária que o pai mantinha como sua principal fonte de comunicação não só com a sua família, mas também com seus funcionários.

É muito fácil também nós lembrarmos de alguém com as mesmas características do pai de Kafka: um avô, um pai, um tio, um pai de alguém... pessoas que fizeram parte de uma geração marcada por esse relacionamento nocivo que distanciou desnecessariamente pais e filhos por praticamente uma vida inteira. Uma geração que acreditava que o respeito dos filhos nascia envolto do medo, e as palavras de Kafka só demonstram o quanto este tipo de relacionamento não era saudável nem para quem somente presenciava.

Foi meu primeiro contato com a obra deste autor tão conceituado, e que já me avisaram que se faz necessário para entender inclusive todos os personagens criados por Franz ao longo de sua carreira, já que grande parte deles parecem ter sido inspirados nessa figura aterrorizante que seu pai exercia em sua vida.

Nota 5/5


Falei muito mais sobre o livro Carta ao pai em minhas redes sociais e também no meu canal no Youtube, no video leituras de janeiro:


13 de jan. de 2026

 



"Quem vai te contar essa história é uma criança de 11 anos. O olhar fresco e bem-humorado de quem ainda vê a vida como mistério está aqui, mas vá por mim: não subestime a solidão de Maria Carmem.

A aprendiz de escritora, enfrentando as angústias da "pior idade do universo", irá te provar que é possível, sim, que uma menina seja mais solitária do que um velho. Ao menos uma menina que, como ela, cresce e cria suas perguntas entre os objetos de uma "loja de velhos". Ali elas já nascem antigas, frescas e pesadas, doce feito da mais dura poesia. Maria Carmem nasceu no fim. Sendo assim, do que interessa a idade? Como ela mesma diz, "é possível que um lápis pareça estar novo, mas todo quebrado por dentro".

É assim, toda quebrada por dentro, que ela desconstrói o mundo diante de si, o mundo adulto que cria regras e não as obedece, o mundo escolar, tudo: "na aula de matemática o problema dizia que um menino e uma menina precisavam calcular quantas laranjas levar ao parque se os convidados meninos comiam tantas e as meninas só mais tantas cada uma.

E eu escrevi que não era pra levar nenhuma, que tudo é mentira, ninguém vai junto a parque nenhum nessa vida". É também assim que ela junta e faz pergunta e faz poesia com tudo o que se ergue e desmorona, os pais, deus, o amor, o corpo, a morte, o difícil que é entender o amor dos outros.

Quando crescer, Maria Carmem vai ser escritora. Mas Maria Carmem já cresceu e já é. Esse livro é uma generosidade de sua poesia. Uma oportunidade de a gente crescer com ela."

Sinopse da editora

Acho que vem daí a palavra solidão, pessoas tão sólidas que ninguém vem checar se estão desabando.


Que delicia de leitura! Fazia muito tempo que este livro estava na minha wishilist, e quando ele entrou no Kindle Unlimited senti que era o meu momento. E certamente entrou para a minha lista de favoritos do ano (em menos de um mês já tenho dois adicionados nessa lista!) porque não só é uma leitura empática, divertida e encantadora, como também me enxerguei em muitos dos desabafos de Carmen.

E tudo é encantador na escrita de Mariana Salomão Carrara: a forma como ela construiu essa criança de 11 anos, que esconde em seu humor a solidão que a acompanha, a metáfora da capa - uma menina em uma piscina para simbolizar o banho maria tão citado no livro, o fluxo de consciência da pequena narradora, a forma ingênua como ela aponta a hipocrisia dos adultos… tem tantas camadas deliciosas nesse livro, que descascar cada uma delas se torna uma atividade paralela à leitura. Parece aqueles testes psicológicos feitos para crianças para descobrir algo da vida delas nas entrelinhas, sabe?

É um livro que certamente eu vou panfletar incansavelmente para todo mundo, porque ele é leve, e aos mesmo tempo denso, poderoso e ao mesmo tempo simples. Uma leitura perfeita para qualquer momento da vida, que nos proporciona um olhar mais gentil para a nossa infância, para a nossa juventude e também para a nossa versão adulta.

Outros quotes deste livro que eu favoritei:

Será que o vaga-lume pisca de dor? Se eu pudesse brilhar de dor eu seria um escândalo.



Eu acho que família é um vaso muito rígido, se você dobrar ou esticar demais ou enfiar muita coisa dentro tudo quebra em um milhão de cacos. Família é um vaso que quebra até por excesso de flores.



– Não, Carmem, às vezes a gente é discreto porque os outros são errados.


Falei muito mais sobre o livro Se deus me chamar não vou em minhas redes sociais, e também neste meu vídeo do Youtube sobre as leituras de janeiro:


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