Desde que o mundo é mundo o cinema, a literatura e o teatro andam de mãos dadas. Se nos primórdios os livros eram adaptados para os palcos, hoje os palcos e a sétima arte se dividem para fazer da literatura algo visível que antes só fazia parte do nosso imaginário depois de ler. E quando a gente pára para pensar que A Odisseia, cânticos atribuídos a Homero de quase 3000 anos, foram adaptados para o cinema como a superprodução mais cara no currículo de Christopher Nolan, um contraponto entre o antigo e o moderno se sobressai aos nossos olhos.
Era de se esperar que muitos estranhariam a presença de armaduras, barcos e linguajar diferentes da Grécia Antiga, mas a liberdade que um cineasta tem para adaptar uma obra faz com que essas diferenças se tornem uma licença poética, porque como o próprio verbo diz, ADAPTAR não é copiar, é encaixar uma história em uma visão ou formato diferente. Uma coisa que entendi quando comecei a estudar cinema, é que se a nossa pretensão como espectador é encontrar uma exata cópia de um livro em uma adaptação, é aconselhável fazer a releitura da obra original, e não assistir a um filme.
Dito isso, quem vai ao cinema de coração aberto para assistir A Odisseia se depara com uma adaptação que faz jus a cada centavo de seu investimento: a presença ilustre de um elenco de peso e escolhido a dedo, a ausência de CGI e uso contínuo de efeitos práticos, a humanização de seres mitológicos e Deuses representados por forças da natureza e ambientações reais que dispensam o uso da tela verde deixaram o projeto apoteótico. Uma história contada de maneira não linear, que conta com flashbacks longos de momentos impactantes e reveladores, e uma tensão levada até a última cena do filme que ganha ainda mais impacto com a soma dessa narrativa, com uma trilha sonora densa e imersiva e atuações que te levam para caminhos que te confundem de maneira positiva para a sua experiência.
Quanto ao elenco, Matt Damon é aquele ator que muitos subestimam, mas que nunca deixou a desejar naquilo que se propõe a fazer. Muitos falam (mal) também da atuação de Tom Holland, mas como Telêmaco, um rapaz que cresceu perdido entre a história do pai e a responsabilidade que um dia teria que assumir sem direção alguma, só configurou o que espera do próprio personagem. A cerne de todos que marcam presença nessa história foi tirada de maneira brilhante por um elenco que caminhou entre a transparência de seus papéis com a responsabilidade de dar conta de uma história tão antiga, tradicional e importante para a literatura.
Falar de Nolan acaba se tornando dispensável, mas nunca dispenso um comentário que seja, rs. Todas as vezes que assisto uma entrevista do diretor em campanhas de divulgação de seus filmes, é como se eu assistisse uma aula gentil e genuína de como fazer cinema nos tempos modernos, mas sem abusar de tantas tecnologias que hoje temos em nossas mãos para ainda fazer o bom e velho cinema funcional. Ele se tornou um dos meus diretores favoritos porque independentemente da crítica a cada um de seus lançamentos, é como se eu tivesse a oportunidade de aprender mais e mais sobre essa arte que cresci consumindo e me apaixonando cada vez mais. E essa aula vai além do habitual que vemos em sala de aula como alunos de audiovisual: não é somente sobre uso de cores, de cortes, de cenários e construção de narrativa e roteiro, é como juntar tudo isso e fazer algo bonito, convincente e espetacular aos nossos olhos.
O trabalho do Nolan não se firma com o que ele fez e sim da maneira que ele fez. Os detalhes que as vezes podem parecer exagerado ou dispensável na verdade são aqueles famosos detalhes que fazem toda a diferença. Para mim, assistir aos seus filmes é entender a cabeça de alguém que enxerga tudo de maneira grandiosa, mas que não perde o fio da meada como muitas das vezes acabamos encontrando em algum outro filme. E que sorte tivemos de encontrar estúdios que acreditaram nas ideias desse homem!
Por fim, como frisei em todos os vídeos sobre A Odisseia que postei em minhas redes, não temos uma sala IMAX raiz nos cinemas brasileiros, mas se sua cidade possui alguma sala XD, vale encarar uma sessão nela para assistir A Odisseia e ter uma experiência além do que uma sala tradicional te proporcionaria. É um filme forte, lindo, com um som poderoso que te faz imergir a cada cena (principalmente na caverna do Ciclope, ali o patamar sobe a níveis de outro mundo). Permita-se encarar uma adaptação que vai além do padrão, mas que entende que a linguagem atual merece algumas mudanças pequenas de percurso. Vale cada minuto do seu tempo.
Neste video eu faço um resumão de todas as curiosidades sobre A Odisseia que encontrei nas entrevistas do Nolan e elenco durante a divulgação do filme:


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