... Foda-se: Você
Não era uma vez, era uma sexta
feira. A hora não precisava me dizer que estava tarde demais para se perguntar
porque ele não voltou. Ao contrário de muita Amélia, não pendurei minha
angústia na janela. Olhar a rua não era o pior dos enganos, mas ficar
desconfiada era. Então voltei a cama, sentei e olhei para o berço: a pequena
dormia nos braços dos anjos, tão inocente e tão incapaz de entender qualquer
desespero meu...
Creio que um filme deveria passar
na minha cabeça, de como era feliz quando o conheci, o jeito natural de deixar
a felicidade nos conduzir, mas logo um azedume franzia meu rosto e as más
lembranças perturbavam minha consciência. Com certeza não era a primeira vez
que ele trocava a família pela madrugada. Na primeira vez, não achei que o
motivo fosse infame, afinal de contas, beber com os amigos não é pecado. Na
segunda, terceira, quarta, quinta e outras unidades de vezes, óbvio que o
motivo era outro.
Apenas dormi naquela noite, para
apenas acordar de manhã e tê-lo batendo a porta, de volta à família que a
partir daquela manhã, não existiria mais...
Desci, abri a porta e minha boca,
na verdade, eram meus olhos para cima dele, perguntando arregalados por onde
ele andava.
"Estava bebendo com meus amigos do trabalho. Então um por um foi
embora e eu fiquei. Por isso estou assim, bêbado. Ficou muito tarde e não tinha
ônibus para voltar. Me desculpa"
Antes de sentir raiva e dizer
algo, fiz contas do tempo valioso que não perderia se achasse algo que
denunciasse a sua mentira. E achei: Comprovantes de saques naquela mesma noite e
cupons de dois hotéis. Ele havia gastado o seu salário inteiro na
madrugada.
Comecei a tremer, minhas mãos não
obedeciam para escrever, anotei os nomes daqueles hotéis num papel, além dos
valores e horários, aspirei toda ira que fervia meu sangue e voltei com os
papéis amarelo-burro na mão:
"E estes comprovantes? São dos seus amigos também?"
Em cinco segundos ele havia
comido e engolidos os comprovantes. Não me surpreendi e repeti aos seus ouvidos
de traidor irracional:
"Eu posso me lembrar do que estava registrado e posso tirar um
extrato da sua conta. O que não posso é deixar de acreditar que você mente sem
culpa alguma e simplesmente não diz mais nada. Assim como já desconfiava que fosse
engolir estes malditos papéis, desconfiei que fosse mentir. Só não entendo
porque... porque está fazendo tudo isso comigo e com meus filhos. Porque não me
conta a verdade..."
O silêncio me disse... que ele
continuaria a mentir. E pior, que a vedete da sua mentira era muito mais falsa
do que aquela que eu pudesse imaginar. Enquanto ele culpava a bebida e a
cocaína, pensei que pudesse bater nele se fosse uma Amélia. Mas apanharia e em
dois minutos estaria chorando de dor e ira, ligando para a polícia e diante do
delegado, ser mais uma estatística nas mãos da injustiça. Aumentaria em milionésimo
por cento o número que tenta escancarar a realidade aos olhos da sociedade
sobre a violência do homem contra a mulher. Claro que não me lembrei da lei
Maria da Penha, muito menos de qual delegacia estaria dando queixa por ter apanhado dele... Só
pude ouvir minha pequena chorar e me culpar de estar perdendo tempo.
Parei de ouvi-lo, fiz a mamadeira
e coloquei-a na cama, deitei ao seu lado e fechei os olhos para não chorar.
Ela chorava de fome e eu choraria de que? Mesmo assim chorei, sem saber. E só
como uma criança, chorei.
Ele não iria separar sua
condição de bêbado da condição de pai. Não se levantaria da privada, onde estava
sentado, porque ele sabia que eu cuidaria dela, sabia que logo esqueceria sua noite de
farra, ele achava que sabia tanta coisa a meu respeito... Só não sabia, que eu
não era Amélia.
Mas levantei e voltei ao
banheiro.
"Eu sei o que você fez. Você pagou puta e hotel para o seu melhor
amigo também, não foi? Se você não falar a verdade, vou ligar para a outra
Corna também e mostrar o comprovante do que você e ele fizeram juntos.
Duvida?"
Claro que ele não duvidaria. Tem
coisa mais sem noção do que mulher puta de raiva? Tem e só os homens com o QI
de cafajestagem mais gabaritados sabem: que homem previsível é mais sem noção
do que qualquer outra coisa burra nessa mundo. E sem demorar ele foi negando o
conteúdo da minha chantagem e contou o que fez. Aliás, parte do que fez...
"Realmente sai para beber com dois amigos. Um deles foi embora e
outro foi comigo beber em outro bar, depois fomos para um Hotel que tem garotas
de programa. Sentamos e era só escolher a que queríamos, mas não gostamos,
então esse meu amigo decidiu ir embora, e eu fui sozinho procurar uma puta na
rua. Estava na Consolação e achei duas putas que me levaram para este outro
Hotel. Nem sabia quanto ia custar, estava tão bêbado que fui aceitando
tudo... Mas juro que não consegui fazer nada. Só bebi e cheirei... "
Antes de perguntar porque, o que
tinha eu feito para merecer, a campainha tocava. Era a mãe dele. Ela estava lá
porque liguei bem cedo, para perguntar se ele tinha ido tomar café com ela, como
de costume todos os sábados... Então ela já sabia, mais do que eu, o que ele
tinha feito.
Abri a porta e não acompanhei-a
até o banheiro, algo dizia que a aparência, o cheiro, nariz vermelho, escorrendo
igual a moleque de rua, diria muito mais e melhor do que eu.
"O que você fez! Quer ser igual ao seu pai? (...)"
Não me lembro do resto da
conversa, porque me interessei mais em ouvir os tapas que a mãe dele dava em
sua cabeça. E como Amélia, senti vergonha. O homem da minha vida não era homem,
muito menos um menino nas mãos da mentira, das drogas e da mãe dele. Era um
grande moleque de 30 anos. Quanto mais sermão e tapa ele levava, eu pensava:
"Bem feito Forrest Gump"
Esta história é real, portanto,
meras coincidências são possíveis. A série Foda-se será divulgada quinzenalmente
e exclusivamente nos meus posts às sextas. As histórias obedecerão a ordem
cronológica dos fatos e são remetentes ao meu passado. A inteção é convidar você para uma
reflexão. Forrest Gump não é apelido, é um pseudônimo... Beijos e
até a próxima!
Gita Habiba: Foda-se...











.png)








