Gente que faz acontecer

25 de jul. de 2024

 


Diante de tantas mulheres que me trouxeram inspiração na vida, não podia deixar de mencionar, com honrarias, aquela que mais me encheu de ensinamentos na vida: a minha mãe. Mas todas as pessoas já estão até cansadas de saber que além de mãe, essa mulher, meu marco 0, também é a minha mais estimada e melhor amiga. 

Antes de todas as 7, o meu marco 0 já me presenteou com a sua amizade quando eu ainda estava em seu ventre. Ela me carregou pacientemente por 9 meses. Eu já cheguei chorando e ela me amou desde então, mesmo eu tendo-a deixado em coma por algumas horas durante o parto, uma cesárea meio complicada. E mesmo colocando a sua vida em risco, ela ainda sim me amou desde o meu primeiro respiro.

O meu marco 0 sempre me tratou como a sua boneca predileta: ela me vestia de conjuntinhos fofos, penteava meu longo cabelo e produzia as mais apertadas marias chiquinhas que me deixavam parecida com uma descendente asiática (já que tudo repuxava, inclusive meus olhos). Em uma família onde os homens eram a maioria, éramos eu e ela as únicas mulheres.

O tempo foi passando, a nossa família foi se reconfigurando, meus irmãos casando, e ficou eu e ela fazendo companhia uma para outra, cada uma em seu mundinho. Meu pai era sempre ausente, eu era a adolescente que encontrava refúgio no quarto, e minha mãe era aquela mulher que mergulhava em seus projetos artesanais e assistia todos os filmes possíveis que vocês podem imaginar (aliás, puxei isso dela). Naquela época na qual eu não entendia nada, e era uma típica adolescente que só faltava comer terra, passei a enxergar a imagem de uma mulher misteriosa, silenciosa, que diante dos meus olhos parecia guardar uma bagagem de sentimentos não ditos e milhares de sonhos não vividos.

Quando perdi a virgindade, não hesitei em procurar da minha marco 0 para contar a novidade. Ela me acolheu com amor, marcou um ginecologista e me levou com carinho à minha primeira consulta. Eu não era mais tãaaao nova assim, já tinha completado a maioridade, mas tê-la comigo fez com que eu não me sentisse só -  foi exatamente ali que eu soube que ela era a minha maior, melhor e mais fiel amiga. 

Eu nunca escondi nada de minha marco 0. Nunca me preocupei se ela ficaria brava comigo diante de algo que eu tenha feito ou dito, muito pelo contrário - sempre soube que se era algo errado, ela iria me mostrar da maneira mais madura e clara possível, sem me magoar, sem me constranger. Ela nunca teve a necessidade de exercer algum tipo de poder sobre mim, nem quando eu merecia, nem quando por algum momento eu fui egoísta a ponto de não enxergá-la como um ser humano. Porque quando somos mais novos temos essa péssima mania de acreditar que nossos pais são imbatíveis, que eles são a fortaleza que jamais seremos. A verdade é que eles também sentem, muitas vezes mais que a gente, mas foram adestrados a não demonstrarem fraqueza para suas crias, para que assim o mundo não pareça aos nossos olhos um lugar tão difícil de sobreviver.

Só que comigo o efeito foi um pouco diferente. Demorou muito para que eu pudesse ver as fragilidades dela, mas eu sempre tive em mente que por mais que o mundo fosse um lugar meio sombrio e difícil de sobreviver, se ela estivesse ao meu lado, tudo seria possível. E assim foi: enfrentei tantas nebulosidades na vida, e com muita generosidade e carinho ela segurou a minha mão, me puxou para cima, segurou em meu rosto e disse: "tenta de novo, eu confio em você. É difícil mesmo, mas você consegue."


Meu marco 0, pra mim, sempre foi sinônimo de alegria.  Ela tem a gargalhada mais contagiante de todos os tempos. Ela esbanja tanto bom humor que todas as minhas amigas sentem isso sem nem ter a conhecido pessoalmente. Quando ela está perto dos irmãos então... aí que isso se quadriplica. Eu amo ver quando eles estão reunidos, porque me mostra de onde saiu tudo isso, todo esse encantamento da minha marco 0, toda essa inspiração de união e cumplicidade. Ela não teve a melhor das infâncias, mas ela conheceu a amizade dentro da própria casa, na sua extensa família. Eles sempre foram imbatíveis juntos, cuidaram uns dos outros a vida inteira, se amam profundamente e gratuitamente, e mesmo que não demonstrem com palavras, demonstram com sinceridade em cada gesto de convivência.



Eu sinto tanto orgulho quando me dizem que eu sou a cara dela, porque ela é tão linda, tão cheia de vida, que mesmo eu travando uma batalha árdua contra a depressão desde os meus 15 anos de idade, ela é a minha principal fonte de energia e vontade de viver. Eu nunca pensei em desistir de absolutamente nada, de nenhum desafio, porque sempre lembro dela acreditando em mim. Sempre lembro dos dias em que fizemos companhia uma para a outra, as vezes até em silêncio, (durante a minha juventude até os dias de hoje), assistindo um filme, quebrando o silêncio com comentários ácidos sobre alguma cena, ou fazendo comparativos esdrúxulos de qualquer coisa. Sempre me recordo de todas as vezes que ela sacudiu a poeira e se reergueu diante de todas as coisas que a empurraram para um buraco no qual ela nunca se permitiu ficar 1 segundo sequer na vida. Sempre lembro do quanto ela é grata, do quanto as coisas mais simples são suficientes para deixá-la feliz. É nisso que me inspiro todos os dias.



Eu deixo aqui nesta foto para vocês o sorriso mais lindo, generoso e sincero que já vi na minha vida. Da mulher mais extraordinária que conheço. Da fortaleza mais inspiradora, mesmo sentindo tantas e tantas coisas, que por muito tempo para mim foram um mistério, mas que ela me confidenciou a partir do momento em que eu estava apta para entender. Essa mulher é meu marco 0, meu alicerce, minha fonte de inspiração. A melhor amiga que uma pessoa pode ter na vida. A que me ama incondicionalmente como eu a amo.

O meu marco 0 se chama Jussara. A minha mãe. A melhor.

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Este é o marco 0 da saga "as mulheres da minha vida". Os outros capítulos são:

1. Tudo termina em bosta

2. Dá uma piscadinha para a câmera?

3. Eu tinha um bicho de pé que já era avô

4. Ô Tatá, olha o Chico tomando o meu leite!

5. De viadagem a gente entende

6. Tá nervosa? Arranca as calças e pisa em cima

7. No body, no crime

8 de nov. de 2023

 


Eu não sei especificar precisamente quando isso aconteceu, mas o dia que a personagem 7 entrou na minha vida por completo, ela me ensinou o verdadeiro significado de parceria.

Eu vejo a 7 como um personagem singular, porque ela consegue ser todas as coisas ao mesmo tempo: ela é uma fortaleza com pitadas de fragilidade, ela é o cão quando está nervosa, mas basta um carinho que você a desmonta por completo. Ela é revoltada na mesma medida que é carinhosa. Ela é uma ambiguidade deliciosa de conhecer, e impossível de descrever em poucas palavras. É como um presente muito bem embrulhado, que a gente vai desatando o laço sem pressa, porque a sensação de abri-lo também faz parte da experiência.

Nossa aproximação veio com o acaso, depois de alguns anos de contato via internet. A tecnologia pode ser usada de formas boas ou ruins, mas neste caso, ela foi perfeita. E diante de tantas coisas em comum, que fez com que estreitássemos um laço, também temos diferenças de personalidade que se tornaram o encaixe perfeito para esta amizade regada a amor.

Diante de todas as minhas experiências de amizade, posso dizer que com a 7 as coisas estão apenas começando. E olha que faz uns anos que a gente já se conhece. Mas é porque a gente tem uma vida toda para viver juntas – porque temos planos vivíssimos para isso, e ainda temos muitas pautas sobre as nossas vidas a serem debatidas. Mas confesso que não tenho pressa alguma para zerar tais pautas, porque sinto que a longevidade da nossa história ainda renderá muitos e muitos frutos.

A 7 não é uma pessoa que tem papas na língua – e isso faz dela alguém extremamente transparente. Ela tem o ritmo dela, a rotina dela, o jeitinho dela, e isso me deu o privilégio de se sentir normal, porque eu sempre notei que era meio julgada pelo meu próprio ritmo. A 7 fez eu perceber que tá tudo bem não corresponder ao ritmo das outras pessoas, porque faz parte da nossa pessoalidade, e quem não respeita isso, não merece muito da nossa energia. 

E claro que dentro de todas essas vertentes está uma das qualidades que mais amo na 7: ela faz com que a gente se sinta em casa. O abraço dela é um acalento, suas palavras são sempre um acolhimento. A 7 é aquela irmã mais velha que te defende na porta da escola, um porto seguro, com quem quero sempre manter as melhores conversas sobre amenidades e outras coisas. 

Besta é aquele que não aproveitou o fruto da amizade que a 7 semeia em nossa vida.


Eu sou muito privilegiada por ter conquistado não só a amizade, como a confiança desta mulher que escolhe a dedo com quem ela vai dividir a sua vida. E ela diz que detesta pessoas, mas a real é que ela sabe lidar melhor com as pessoas do que eu. E por mais que ela tenha essa casca protetora em sua volta, as vezes percebo que ela tem muito mais fé nas pessoas do que eu já tive em toda a minha vida – e isso é muito bonito de assistir, porque quando perdi minha fé na humanidade, foi quando eu percebi que a minha caminhada talvez seria um pouco mais na penumbra. Mas aí a 7 apareceu e acendeu uma lamparina, pegou na minha mão e me mostrou o caminho menos ardido para alcançar onde havia mais luz.

Tá, já sei como resumir a 7 em poucas palavras: ela é uma verdadeira biblioteca. Não só por gostar de livros e ter milhares deles, mas também porque ela pode representar diferentes personagens maravilhosas que conhecemos nas obras literárias. Muitas vezes ela se transforma em uma heroína astuta e forte – outras vezes ela é aquela comparsa que a protagonista precisa para enxergar seus próprios passos. Mas a que eu gosto mais é quando a vejo como a autora de sua própria história. E que história linda!

O nome da 7 é Juliana E. Aquela pessoa que acobertará um crime meu, se preciso.

18 de out. de 2023

 


Certa vez, na faculdade, estava eu envolvida em um projeto que me renderia algumas boas notas na grade curricular. Era uma época que tudo era novo para mim: a liberdade, aquela sala de aula com gente adulta, de todas as idades, com sonhos distintos, e que assim como eu, também estavam fazendo as coisas meio que no automático, por se sentirem meio perdidos.

Foi nessa época que conheci a personagem 6.

Ela era de uma unidade diferente da minha, mas nos trombamos nesse projeto/evento, e trabalharíamos juntas durante toda a semana. Depois disso, já lá no final do curso, tivemos uma outra experiência desastrosa que resultou em um rompimento entre nós de algo que mal havia começado. Mas o que parecia o fim de algo raso, se tornou o começo de algo mais profundo. 

Mas claro que isso não aconteceu da noite para o dia. Na verdade, este algo foram anos de cultivo, de cuidado, e de alguns outros pequenos (e rápidos) rompimentos também. Mas o interessante dessa história não é como ela começou, mas o quanto que a personagem 6 me ensinou sobre a vida de uma maneira que eu jamais imaginei que aconteceria.

Primeiro porque muitos desses rompimentos, sejam grandiosos ou pequeninos, tem a ver com grandes explosões: de ideias, de personalidades, e principalmente, explosões de erros tentando acertar. E claro que diante de tudo isso existe uma raiz que explica muitas coisas.

Já que estamos falando de uma personagem 6 com uma enorme bagagem de vida.

A personagem 6 aprendeu muito cedo a ter autodefesa. Mesmo que ela nem se dê conta disso, perder a sua maior capa protetora (que é a figura de uma mãe na vida de uma criança) a fez vivenciar situações as quais nenhuma criança merecia passar. É ridículo e totalmente piegas dizer isso, mas foram essas vivências que fizeram ela, de uma forma até desumana, tomar as rédeas da própria vida muito cedo, e consequentemente a maturidade precoce a fez trilhar novos rumos que para muitos pode parecer solitário, mas na verdade, foram um grito de independência para ela. E foi exatamente este caminho que ela percorreu que fez dela alguém tão forte, mas tão forte, que muitas de suas atitudes são tomadas pelo mais puro instinto de sobrevivência – este que ela adquiriu tão menina. 

Obviamente que por mais força que um ser humano tenha, ele também sente dor. Afinal de contas, estamos falando de uma pessoa, e pessoas são movidas por sentimentos também. E a história da personagem 6 também foi muito marcada pela busca de diferentes sentimentos, mas que se encaixam em um único conceito: o amor.

Pelo jeito durão da personagem 6, ela até pode passar a imagem de quem não está nem aí para o amor, mas acredite, ela ama de um jeito que as vezes nem é saudável para ela mesma, porque ela se preocupa tanto com quem ama e cuida mais do outro do que dela mesma. Ela pensa em fazer caridade até para quem sequer merece o seu bom dia, e por vivermos em um mundo onde a maldade impera, tem até gente que tenta se aproveitar desse lado bom da 6. Mas acontece que o tempo ensinou que a 6 não devia deixar seu instinto de sobrevivência de lado, e com isso, ela sempre provou para essas pessoas maldosas que não é porque ela trilha a sua estrada sozinha que ela é otária.


De otária a 6 não tem nada.


E sabe como esta personagem me inspira dia após dia?
Eu me lembro que todas as vezes que ela tomou rasteira, ela se levantou com suas próprias pernas. Sem bengala alguma.
Me lembro também que todas as vezes que ela ouviu um “não”, ela buscou o seu próprio sim.
Também me recordo que cada degrau que ela subiu foi uma baita de uma escalada, e sempre com seus próprios méritos e de mais ninguém.
Porque vejo que a 6 trilha sua vida sozinha, mas que não vive o estado de solidão, como muitas vezes já me vi viver.
Ela me ensinou, sem fazer força alguma, sem precisar me falar nada, que as pessoas são singulares, e suas singularidades não precisam ser necessariamente iguais as nossas para que possamos ter uma amizade genuína.
E principalmente, porque diante de todas as explosões, ela sempre juntou os cacos na humildade e bom humor. E fez dessa história uma comédia de nós duas.
E mesmo quando o instinto de sobrevivência dela está ligado, ela não deixa de fazer planos, de sonhar. Mesmo quando ela está morrendo de medo de algo, ela não se deixa cegar. Ela dá um jeito para tudo.

A seis é uma baita rabugenta, mas é aquela que a gente não troca por nada neste mundo. Quer dizer, quem é inteligente não a troca por nada neste mundo. E se você ficar nervosa, que arranque as calças e pise em cima.

A 6 finalmente aprendeu a dar para os outros a mesma atenção que os outros dá a ela. Portanto, faça por merecer (e você não se arrependerá, te garanto).

O nome da personagem 6 é Juliana T.

 

 

8 de out. de 2023

 


A 5 apareceu na minha vida como uma lufada de ar fresco. Despretensiosamente, ela virou a minha maior confidente nos primeiros 10 minutos que nos encontramos. A nossa afinidade já era tão gigantesca, que parecia que já nos conhecíamos de outros carnavais. Mas é assim que denominam os vínculos de alma, né?

Eu e a 5 temos aquela parceria de baixa manutenção, porque a nossa ligação é mais forte do que qualquer necessidade de estarmos grudadas o tempo inteiro, ou nos falando todos os dias. E é um vínculo tão orgânico, tão natural, daqueles que a gente manda mensagem quando a outra pensou em fazer o mesmo. A gente fala a mesma coisa no mesmo exato minuto. A nossa confiança é tão gostosa quanto a tal lufada que mencionei no começo. E toda vez que nos encontramos, é como se tivéssemos nos visto no dia anterior, as coisas nunca esfriam, porque irmandade é isso – a gente não tem a necessidade de provar amor onde ele transborda.

Conheci a 5 ainda muito novinha, quando era menor de idade, mas ela sempre teve uma genialidade singular. A 5 consegue ser várias versões em uma só: madura, quinta série, ácida, séria, engraçada, analista de pessoas, desligada, corajosa, cautelosa, esperta, dinâmica, pacata, aquela que assume seus próprios defeitos com um bom humor contagiante... e eu amo cada pedacinho da 5, admiro cada versão dela.

Aliás, sempre acreditei que conhecemos a bondade das pessoas de acordo com a reação dela ao ver um animal. A 5 só falta ter uma síncope diante de um, seguido por um ataque de fofice que inclui fala modificada (geralmente um tom mais infantilizado em linguagem diferenciada que tenho certeza de que os animais entendem perfeitamente) e um autocontrole enorme para não enforcar com um abraço o serzinho que a conquistou no primeiro segundo. Diante disso, pode-se dizer que é cientificamente comprovado que além de tudo, a 5 tem um coração de ouro.

Eu tive o privilégio de assistir a 5 desabrochar. Ela me deu a oportunidade de acompanhar muitos momentos importantes de sua vida. Eu me emocionei muitíssimo quando a vi com o canudo na mão no dia de sua colação de grau. E me senti muito especial quando ela me concedeu um convite de sua formatura. Eu a vi conhecer o amor de verdade, e ver e sentir a felicidade dela, para mim, foi uma das coisas mais lindas que já presenciei na minha vida. A 5 foi altamente corajosa quando recalculou totalmente a rota de sua carreira profissional, e a minha admiração por ela cresceu ainda mais, quando eu achava que ela já tinha zerado essa parte da vida. Por mim a 5 viveria em um potinho protegida de todo o mal, longe de toda dor que esse mundo esquisito as vezes coloca em nossa vida. 

Eu sempre darei para ela o meu abraço, meu colo, meu ombro e minha admiração, porque a 5 sempre foi minha casa também, minha inspiração.

Falta pouco par que a nossa amizade complete a maioridade nesta vida. Mas tenho certeza de que ela já existe há pelo menos umas 18 reencarnações.

O nome da minha 5 é Anelisa. Com S, por favor.

26 de set. de 2023

 


Uma vez eu fui apresentada a uma garotinha 9 anos mais nova que eu. E eu sempre me confundo com esses números (sou de humanas, não me julguem), porque penso que ela tinha 9, mas na verdade ela tinha 12. E quando a encontrei a achei tão precoce, tão a frente do seu tempo, que me apeguei a ela como se tivesse sido presenteada pela vida com uma irmã mais nova.

E eu nem imaginava que era mais ou menos isso que estava acontecendo mesmo.

Hoje estou aqui para falar da personagem 4. Uma moça que passou uns 10 anos fazendo 16. Tinha vezes que eu até achava que ela tinha nascido em ano bissexto. Parecia que o tempo nunca passava para ela.

Por mais que em nossa diferença de idade caiba uma criança que já poderia tacar fogo em uma lata de lixo, a 4 mudou a minha vida de uma maneira muito especial. Como disse antes, era uma irmã entrando na minha vida, e mesmo que ela tenha queimado o meu edredom com o ferro de passar roupa tentando inutilmente passar uma calcinha, meu amor por essa menina cresceu cada vez mais.


Hoje eu não sei mais viver a minha vida sem ela.



A 4 sempre foi muito esperta, de uma inteligência inspiradora. Ao mesmo tempo que ela era aplicada na escola, ela também podia se tornar uma pentelha de carteirinha. Ela sempre teve a liberdade de ir e vir dentro da casa dela – eu na idade dela só podia ir da escola para casa – e ela nunca fez sua mãe se arrepender deste grande presente que ela sempre teve em suas mãos. Na verdade, ela sempre demonstrou que era merecedora desta liberdade, e assim ela aproveitou com gratidão.

A 4 desde muito cedo aprendeu a se virar para ter o que queria. E ela sempre foi muito focada em seus objetivos. Cresceu com várias metas em sua cabeça, e pasme, ela chegou na casa dos 30 agora e já deve ter batido pelo menos metade delas. Claro que com os anos outras metas foram adicionadas na sua lista, mas eu tenho certeza que antes dela chegar aos 40 ela vai alcançar mais outra metade. E isso é algo que me enche de orgulho - ela alcançou tudo isso sem depender de ninguém.

Ter ganhado esta irmã preencheu um vazio imenso dentro de mim. A 4 faz isso com maestria só por ela ter nascido e cruzado o meu caminho. Mesmo que hoje sejamos duas adultas, com rotinas cheias e responsabilidades a mil, toda vez que nos vemos é sempre uma troca de carinho genuína e regada à amor. Mesmo que a gente demore para se ver, sabemos que sempre podemos contar uma com a outra – se precisar, uma sai correndo para socorrer a outra. A 4 sempre estendeu a mão para mim, sempre me ofereceu o seu ombro, sempre fez com que eu me sentisse verdadeiramente amada como se fôssemos do mesmo sangue. Ela veio para me mostrar que família é aquela que nos acolhe no coração.

E eu darei o meu melhor para retribuir sempre que ela quiser. E quando ela não quiser também. Nós construimos uma história muito bonita, regada a amizade, a respeito, e inúmeras memórias incríveis que tivemos o privilégio de construir juntas, viajando, trocando ideias, indo a shows, ou jiboiando no sofá.

Essa menina, que hoje é uma mulher, é centrada, divertida, autodidata em muitas coisas, principalmente no quesito da vida. O que hoje ela sabe, metade foi a mãe dela que ensinou, a outra metade ela aprendeu sozinha. E se eu consegui ser pelo menos 1% como ela me inspirou a ser igual, eu já me dou por satisfeita.

Ela sempre me pede para coçar as costas dela. E fazer cafuné também. 
O gato dela já tomou meu leite enfiando a cara na caneca. E a gente lembra disso TODA VEZ QUE NOS VEMOS, e rimos como se fosse a primeira vez.
Eu tive o enorme prazer de vê-la desabrochar ao longo dos anos. E foi uma das experiências mais gratificantes que a vida me proporcionou.
Eu tenho paciência para esperar a hora que ela acha que se sente pronta para desabafar. E me sinto em casa porque sei que tenho ela para desabafar também.
Ela é meu contato de emergência, sabia?

Eu amo saber que ela é transparente comigo, porque eu jamais vou julgá-la. Muito pelo contrário – para ela eu sempre darei o meu amor.

E eu amo quando as pessoas se impressionam o quanto nós somos fisicamente parecidas. Deve ser porque somos irmãs de alma.

O nome da personagem 4 é Tabata.

 

24 de set. de 2023

 


"Desde pequena, tenho uma facilidade muito grande de distinguir as intenções das pessoas, e isso me trouxe grandes descobertas, sobretudo em questões emocionais – e quando me refiro ao emocional, incluo elas e a mim.

Eu precisava dizer isso antes de falar sobre a personagem de hoje. Uma figura cativante, que desde o primeiro dia que botou o pé na sala de aula, naquele último ano de colégio em uma pequena e pacata cidade paulista, ganhou meu coração de forma avassaladora. Ela fazia os professores rirem e beijava os meninos mais duvidosos que essa história poderia contar.

Ela era totalmente fora da curva. Uma adolescente sem filtros – mas isso não queria dizer que ela era sem noção; muito pelo contrário. Ela tinha total ideia do que falava e fazia, inclusive se algo machucaria ou não alguém. Por mais que ela tivesse liberdade com as atitudes e palavras, ela nunca as usou para machucar alguém voluntariamente. Isso a fez uma pessoa doce e querida até os dias atuais. Aliás, comecei essa frase com o verbo no passado, quando na verdade o "fora da curva" também marca presença no hoje, mas de maneira mais tímida.

Acho que foi isso que me trouxe confiança e zelo por esta personagem. Ela aproveitava essa renúncia de filtro para fazer as pessoas rirem: rirem delas mesmas, ou dela própria, ou de qualquer coisa que poderia ser triste, mas que se tornava engraçado saindo de sua boca. A verdade é que ela sempre teve o dom de deixar todo mundo à vontade, mesmo que depois se arrependesse, quando percebia que o outro alguém não tinha o mesmo cuidado que ela de não machucar o outro.

E mesmo com as intempéries da vida, com todas as reviravoltas inconsequentes que a vida pode nos pregar, essa garota cresceu sem nem notar que caminhava sobre pedras árduas. Ela se perdeu um momento aqui, outro ali, se deixou levar por crenças que a expuseram como jamais fora exposta um dia, mas como diz aquele velho ditado, ela fez daquele limão uma limonada.


E assim seguiu a vida continuando a sorrir.





Ela continua a sorrir para todo mundo. Distribui abraços em terrenos cheios de ervas daninhas, perdoou várias pessoas que a fizeram chorar por tantas e tantas vezes, porque a boca sem filtro fez do coração dela moradia para quem quisesse ficar. Se vestiu de palhaço e foi fazer o que sempre soube fazer de melhor a quem não via mais motivo algum para sorrir na vida. Se emaranhou em braços muito apertados, mas que jamais fizeram com que ela perdesse a fé no amor ou nas pessoas. Ela nunca parou de sorrir mesmo quando tudo parecia dor.

Mesmo quando ela perdeu um pouco de si, fisicamente falando.

Mesmo quando, anos atrás, ela perdeu quem iluminava o chão escuro onde ela pisava.

Mesmo quando se viu sozinha em momentos da mais pura escuridão.

Mas ela sempre bateu a poeira e continuou a trilhar, sem desistir de fazer todo mundo sorrir.

Quanto a mim: eu sempre acompanhei essa trilha do meu camarote. Aquele que ela me confiou com a vista mais privilegiada desde aquele primeiro dia que ela botou o pé na sala de aula. Em alguns desses momentos, ela já chegou a salvar minha saúde, o meu dia, a minha dignidade e o meu emocional. Ela já secou tanto o meu choro, já me fez vítima tantas e tantas vezes de seus ataques de alegria, e longe ou perto, sempre senti sua presença constante em cada um dos meus dias. Bendito o dia que eu li essa garota de coração generoso (até demais), que me dei conta que suas intenções era de oferecer overdose de aconchego para todo mundo que se permite entrar na onda dela. Bendito o dia que falei “oi, senta aqui” para ela, que se tornaria alguém que não vivo mais sem.

A personagem três dessa saga de mulheres incríveis é movida a simplicidade e alegria. E isso é suficiente para encher o seu dia de pequenos momentos inesquecíveis. A personagem três sempre me mostrou que os melhores momentos não são regados à gastos – se é com a pessoa certa, um silêncio confortável é suficiente para se tornar marcante. Assim como brigadeiros de panela, macarrão com bichinhos, filmes bons ou ruins ou dias preguiçosos no portão de casa ou no sofá. Ouvir suas histórias de vida sempre será um privilégio, afinal de contas, não conheço ninguém nessa vida que teve um bicho de pé que já era avô.

É alguém que demorou muito para aprender a falar “não”, mas quando aprendeu, viu que faz parte da nossa autoproteção – porque nem todo mundo usa a falta de filtro da mesma maneira benevolente que ela, sabe?

É alguém que cresce todos os dias olhando o mundo sem sombras. Que mesmo com medo, não perde a fé que seu coração incrível ainda faz pulsar: fé e esperança. Isso é tão inspirador que vocês não imaginam.


A personagem três se chama Selma.

 

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