Em As vacas não me olham mais na cara, romance de estreia de Dora Freind, conhecemos uma menina que observa o mundo com uma lucidez precoce e aprende a nomear a dor quando ainda não dispõe de palavras para isso. Numa cidadezinha rural marcada pela pobreza e pelo isolamento, a pequena narradora cresce entre a tensão familiar pautada pelo silêncio da mãe, misteriosamente emudecida após o parto, e as vacas de seu quintal, suas únicas companheiras. À medida que novos vizinhos ocupam e desocupam a casa ao lado, a menina sem nome se "gentifica", acumula palavras em vez de mugidos e vai deixando de ser bicho ao mesmo tempo em que dá de encontro com as descobertas da infância e as violências e fissuras do mundo adulto. Com rara precisão formal, Freind constrói uma história que contrasta a todo momento ingenuidade e lucidez, violência e delicadeza.
Espécie de prosa poética tomada por uma dicção infantil enternecedora, As vacas não me olham mais na cara é o tecido em que Freind constrói tanto um romance de formação quanto uma investigação sobre identidade, linguagem e amadurecimento feminino, uma história que transforma a infância em território de consciência.
Sinopse da editora
"Também fiquei pensando no que a Sra. Silvestre falou, que para o homem querer é tudo. Meu pai quis ir embora e foi. Deve ser fantástico ser homem".
Quem leu, amou e ficou com saudade de Carmen de “Se deus me chamar não vou” certamente verá muitas semelhanças entre este título e ao de Mariana Salomão Carrara (o Kindle até sugere o título de Salomão no final da leitura), pois é como se revisitássemos uma versão de Carmen que nasceu e cresceu no interior. Mas acompanhar o crescimento desta menina sem nome trará também o mesmo sentimento agridoce de conhecer uma história triste contada de uma maneira bem humorada.
A construção da personagem principal, que é também a nossa narradora, é preenchida de uma simplicidade e ingenuidade doce na mesma medida que é preocupante, e uma hora a preocupação que surge na nossa cabeça durante essa constatação infelizmente acontece (não vou elaborar para não dar spoiler, mas quem leu sabe do que eu tô falando).
Honestamente, eu acho que é um livro que trará sensações distintas dependendo do seu estado de espírito. Pode ser que você não encontre a graça na proposta da narrativa escolhida se estiver muito sensível, e pode ser também que você vá na onda da autora e perceba que em grande parte dos casos, é exatamente isso que acontece quando convivemos com a solidão enquanto estamos anestesiados (e protegidos) pelo nosso estado de ingenuidade. Mas se possível, é importante iniciar a leitura desagarrado de qualquer sentimento interno, para que a conclusão e mensagem desta leitura ofereça a resposta exata de como alguém que vive tudo o que foi escrito enxerga nesta fase da vida.
"É muito confuso isso de ser gente. Tem vezes que a coisa é boa e o olho chora, e tem hora que a coisa é ruim e a boca ri."
Você pode conferir a minha resenha de "Se deus me chamar não vou" clicando aqui.
Vídeo no youtube:
Postar um comentário