Iatan GM: Por um pouco de paz

08:00:00


Aquele homem tinha em suas mãos uma arma, com uma única bala. Poderia escolher atirar em seu suposto inimigo, matá-lo e livrar-se da única grande confusão de sua vida, correndo o risco claro de errar e muito possivelmente morrer nas mãos dele ou de qualquer outro dentro dos próximos segundos. Por outro lado, ele poderia também colocar essa arma em sua cabeça, puxar o gatilho, atirar em si mesmo e se livre. Ser livre em uma morte, que embora trágica e covarde, poderia dar a ele a solução perfeita. Já havia matado tantos inocentes, que sentia não ter mais respeito algum para manter. 
Sua própria bala atravessou seu crânio, no desejo de que junto com todo aquele sangue sua culpa fosse expulsa de sua cabeça. 
Livrou-se do tormento de tirar vidas de inocentes. Poupou a vida e a sanidade daquele inocente que para defender a si mesmo o mataria se ele não o fizesse. 
Eram todos vitimas, pagando o preço de uma briga que não compraram. 

Eles não perguntaram. Apenas bateram na porta e exigiram aquele homem, o levaram como se fosse uma mercadoria. Melissa e ele estavam juntos desde a adolescência, era considerável dizer que passaram toda a vida juntos. Aos quinze anos ela o ouvia o quanto temia a vida militar, os uniformes, a coragem e o respeito exercido a força pelos mesmos. Ela também temia por ele. 
Cinco meses deslizaram lentamente desde que ele fora, só tinha notícias dele pelas cartas que chegavam. Sabia como se sentia culpado por estar em um país estranho, matando estranhos inocentes com a justificativa de que essas pessoas inofensivas seriam ameaças. Matando por uma defesa desnecessária, por um ideal inexistente. 
Era obrigado a tirar a vida de pessoas inocentes com o pretexto de proteger sua nação, quando na verdade seu país apenas queria mostrar que estava no poder. 
Ele tinha toda uma vida à prosperar na sua cidade. Um profissional exemplar, inteligente até demais para a sua época. Um marido excelente, um pai indiscutivelmente perfeito. 
A guerra não fazia parte do futuro planejado pelo casal de longos anos. 

O toque da campainha, naquela manhã, foi o som que precedeu a marcha fúnebre. Pela ausência das cartas nos últimos meses ela já sabia que dessa vez iria encontrá-lo, não com aquele sorriso que só ele tinha, mas uma seriedade pacífica como aquela que desabrochava em seu rosto quando se sentavam juntos sobre a toalha quadriculada, no campo florido próximo ao lago e questionavam as coisas óbvias do mundo. 
As flores continuavam o cercando. Mas agora a toalha estava cobrindo seu corpo, e ao invés do quadriculado, via-se uma bandeira. A bandeira que seu marido jurou proteger por obrigação, mas que não lhe ofereceu proteção nenhuma ao ser alvo de um tiro. 
Queria encontrar motivos pra acreditar que a vida dele foi tomada na busca da paz. Mas que tipo de paz se alcança com a guerra? Aquele corpo, que costumava ser quente e brilhante como o sol, estava pálido e frio como a lua. Estava em um descanso indesejado e brevemente doloroso. Um descanso vindo antes da hora. Teria ele apenas encontrado a paz pela qual eles lutavam? Aquele sono no qual ele se encontrava, seria a tal da paz? 
A única coisa que lhe disseram foi que seu marido foi abatido em um confronto, e que todo o país lamentava a morte dele, assim como a de dezenas de outros soldados. 
Mas e daí? Que importância tem que o todo país lamente a morte de seu homem se eles não o conheciam como ela o conhecia? 
Não teria muita importância nem se o mundo parasse para consolar ela naquele momento, pois de qualquer forma as crianças ainda pareciam não entender o que acontecia. Questionavam a toda hora o motivo pelo qual seu pai estava naquela caixa de madeira e porque razão não se mexia. 
Uma dor causada por uma razão desnecessária, que apenas avisava que na guerra morrem famílias e não só soldados.



You Might Also Like

0 Comente aqui!

Parceria

Parceria

Facebook

follow me

follow me

Subscribe