Iatan GM: Sobriedade

08:00:00


Desde que passou a trabalhar no centro da cidade o barzinho na esquina era seu destino solitário e obrigatório de todas sextas. Nas últimas semanas uma companhia marcava presença com ela, para beber e comer o mesmo de sempre, na mesa de sempre falando as bobagens de sempre. Apesar dos pesares, a companhia agradável vinha mexendo com ela, que decidiu tentar dar um rumo diferente as coisas.
- Não beba hoje – pediu enquanto eles aproximavam-se das mesas.
- Existe algum motivo especial para isso? – Ele questionou.
- Eu não quero beber - falou sem graça.
- Vindo de você chega a ser estranho - ele riu e os dois sentaram próximos ao balcão.
- Acho que algumas pessoas abusam do álcool para suportarem umas as outras – respondeu ela tentando manter sua seriedade – acredito que nós dois juntos é algo que flui corretamente. Pelo menos pra mim as palavras já saem de maneira espontânea, sem necessidade daquela coragem proveniente de uma embriaguez qualquer. Hoje eu quero desfrutar da tua companhia estando sóbria, eu quero estar limpa, completamente consciente. Amanhã quero lembrar cada palavra que trocamos e de cada piada tua que me fez rir. Quero lembrar teu rosto sem a bagunça que a bebida causa a minha visão.
- As pessoas dizem que as amizades que surgem em um bar não tem futuro algum. Existe alguma razão para isso ser diferente com a gente?
- As pessoas afirmam coisas que nem mesmo elas acreditam. Você tem algum motivo especial para acreditar nelas?
Ele sorriu com a resposta, mas como permaneceu em silêncio ela continuou:
- Sinto que você é diferente, e por isso mesmo tenho que fazer diferente. Não preciso estar bêbada pra te querer do meu lado. Não tenho que estar fora de mim pra desejar te encontrar outra vez.
- E o que te faz pensar assim? - Questionou ele, que já parecia confuso.
- Não sei. O modo como me trata, o modo como fala comigo. Medo é a palavra correta a ser aplicada ao que sinto. De todas as formas de amor, apaixonar-me por amores inalcançáveis sempre me parece ser a única opção. Não espero que você seja inalcançável como foram meus outros amantes. Não quero que alteres tua rotina por mim, seria ousadia demais da minha parte pedir isso, seria tolice, bobagem. Amar alguém como eu pode ser simples, como tudo que você já faz. Não mude sua rotina, apenas se permita a adaptar-me a ela, como um complemento. Vamos trocar amor da maneira que podemos, da maneira que sei.
- Estou tentando entender tudo que tu me diz. Nunca mencionei que tenho um relacionamento sério? - Disse ele levantando a mão e mostrando a aliança no dedo. - Não sei o que há entre você e eu, mas por ora, apenas proponho tentarmos nos encontrar mais vezes e ver no que dá. Vamos deixar que nossa realidade nos embriague da maneira mais saudável.
Ela calou-se. Tentou contornar o assunto, desenvolveram uma conversa confusamente sóbria a partir daquele instante. Ela não sabia que o rapaz era comprometido, mas deveria supor, uma vez que uma aliança no dedo sempre pareceu algo obrigatório para que ela se apaixonasse por um rapaz. Mesmo que não quisesse.
O fato de ele não ser livre para estar com alguém, e mesmo assim mencionar que tinha interesse em conhece-la melhor foi o que fez com que naquela noite ela sentisse que por mais que essa rotina precisasse ser quebrada, talvez essa não fosse a hora certa. Talvez a própria decisão que ela havia tomado não fosse correta. Ao vê-lo se despedindo de seu encontro semanal ela decidiu que a mudança necessária na rotina de sua vida seria cortá-lo dela.
Ele parecia um bom homem aos seus olhos embriagados. Diante de seus olhos sóbrios, ele era como qualquer um que já havia a decepcionado.
Ele parecia melhor bêbado.



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