Iatan GM: Quando o orgulho é o mais predominante dos sentimentos de um homem

08:00:00


A campainha tocou. Por ele poderia tocar o quanto quisesse desde que não o incomodasse tanto. Rolou de um lado para o outro da cama, tentando resistir à insistência de quem queria acordá-lo naquele horário.
Abriu os olhos e interrompeu seu sono, os mesmos se fecharam em protesto, mas ele tornou a abri-los e seguiu até a porta cuidadosamente para não acordar sua esposa.
Ao passar pela sala acendeu a luz, olhou no relógio e viu que marcava duas horas da madrugada. Ele hesitou instantes antes de por a mão na maçaneta, pois já era tarde, imaginava o tipo de pessoa bateria na porta de alguém uma hora dessas. Mas já estava lá, não voltaria para cama sem sequer saber quem lhe incomodara.
Abriu a porta. Olhos bem conhecidos estavam fixos nele. Olhos desconhecidos que há um bom tempo ele desejava desconhecer. Fechou a porta sem pensar duas vezes, virou e quando começou a seguir em direção ao seu quarto a campainha voltou a tocar. Ele ignorou e segundos depois ela tocava com mais insistência. Irritado e com sono ele tornou a abrir a porta antes que sua esposa acordasse.
- O que você quer de mim Melissa? – Falou irritado, com a voz baixa.
Melissa foi sua namorada. Passaram muitos anos juntos, e ele atrevia-se a dizer que a amava. Era tão apegado a ela que sentiu uma de parte de si ir embora quando ela decidiu estudar em outro país. A distância, para ele, já era algo incompreensível. O que ela disse para ele só confundiu inda mais seus sentimentos.
- Precisamos conversar – ela disse. – Não vai me convidar para entrar?
- Não – falou rispidamente – não é hora pra isso. Vá embora.
Ele já ia fechar a porta novamente quando ela entrou na casa sem sua permissão. O cabelo dela passou perto de seu rosto, e ele pode sentir o cheiro dos seus cabelos, exatamente o mesmo de cinco anos atrás.
- Eu tenho muito que falar – disse ela que já estava totalmente acomodada na sala.
- Eu não estou disposto, e nem quero ouvir o que você tem a me dizer.
- Ma precisa. É só isso que quero.
- Não posso fazer muita coisa.
- Na verdade pode. Olha pra mim, eu voltei. Voltei pra você.
- Por pura ingenuidade – ele falava ainda segurando a maçaneta, tentando não olhar diretamente nos olhos dela. – Você pensou que eu ia te esperar pra sempre?
- Na verdade sim.
- Pois saiba que não foi bem assim que aconteceu. Diga logo tudo que precisa dizer, não quero que essa conversa dure mais do que o necessário.
- Vai durar o tempo que for necessário.
- Pois retire-se, para mim foi o suficiente.
- Não, não foi. E pare de agir como uma criança de cinco anos.
- Cinco anos, mesmo? – Ele bateu a porta e virou-se pra ela. – Cinco anos é tempo demais sabia? O que surpreende é o fato de você ainda lembrar de mim!
- Mas eu lembro. Perfeitamente.
- E você acha que isso basta?
Ele não precisava disso. Não precisava mais de Melissa de volta, até mesmo pela sua instabilidade. Sabia que a qualquer hora seria deixado de lado novamente.Nunca foi prioridade na vida dela. Da primeira vez ela foi embora sem pensar duas vezes, nem passou pela sua cabeça largar tudo para ficar com ele. Era uma mente bastante fria, talvez até a mais fria pela qual ele passou. Tinha acabado de chegar à casa dela, com um sorriso no rosto e uma aliança no bolso. Esse dia tinha tudo para ter sido o melhor de sua vida.
Mas não foi. Sequer passou perto.
Ainda na porta da casa dela ele recebeu a noticia que apagaria sua felicidade: ela iria viajar. Passaria um bom tempo fora e não queria estar comprometida com ninguém que estivesse longe dela.
- Você lembra do que fez? – Ele perguntou, com uma voz rouca de sono e tristeza. – Tenho certeza de que aquilo não foi um pedido para que te esperasse.
- E o que você queria que eu fizesse?
- Exatamente o oposto do que fez!
- Me diz do que você precisa...
Ele precisava de muita coisa.
De um beijo, um abraço, um pouco de carinho, de atenção, de conforto, liberdade. Queria confiança, compreensão, independência, amor. Melissa não ofereceu tudo isso quando pôde. Sua atual esposa não oferecia tudo isso também.
- Não preciso de nada – ele respondeu. – Não preciso de nada.
- Honestamente, você não precisa de nada mesmo?
Em algum lugar ele sabia que estava tão feliz por vê-la, mesmo que isso parecesse um minúsculo sentimento comparado a vontade de agredi-la, humilhá-la e ofendê-la da maneira que pudesse. Queria que ela sofresse ao menos um terço do que ele sofreu.
- Você não vê que voltei por você?
- E eu não te pedi pra voltar. Devia ter ficado mais do que obvio que eu não queria mais olhar na tua cara. Você devia saber que o que você fez não se faz com ninguém!
- Então olha o fundo dos meus olhos e me diz o que você sente.
Alem de confuso ele se sentia frustrado, irritado, cansado, angustiado.  Em relação a ela e sentia certa alegria, raiva, nojo, desprezo... Mas preferia não sentir coisa alguma.
- Pra falar a verdade – ele mentiu – não sinto coisa alguma.
- Você está mentindo! – ela disse e aproximou-se dele.
- Na verdade estou – disse aproximando-se dela e segurando um de seus braços com firmeza. – O que sinto agora é uma vontade imensa de ter você longe de mim.
- Mas essa vontade que você têm é sem razão!
- E o fato de você está na minha casa a essa hora tem sentido?
Ela soltou seu braço da mão dele, chutou alguma coisa que não viu no chão.
- Eu vou te pedir mais uma vez – falou ele controlando a raiva. – Saia da minha casa, por favor.
- Você disse que não ia me deixar! – Melissa falou soluçando.
- MAS FOI VOCÊ QUEM ME DEIXOU! – Ele gritou. – Se possível, também saia da minha vida!
Para ele foi o pedido mais difícil de fazer. Para ela foi o pedido mais difícil de ouvir.
Ela saiu. Não só saiu da casa como estava decidida a nunca mais voltar a vida dele. Logo se recuperaria do acontecido, seu coração se adaptava facilmente a qualquer um.
Já ele viveria infeliz. Ao lado de uma mulher que o amava, mas não era amada como merecia. Ele faria o possível para suprir as necessidades dela, e ela, embora tentasse, nunca conseguiria dar a ele o necessário.
Ele não era completamente feliz e sua felicidade influenciava diretamente na vida dela. Ele sempre receberia amor insuficiente porquê havia colocado em sua cabeça que melissa seria a única que saberia como amá-lo.

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