Iatan GM: Adolescência (A dor essência)

08:00:00


Oh morte, oh morte
Seja fria comigo
Me leve agora contigo
Pois não quero morrer num outro dia.

Sussurros. Medos. Tensão. O garoto escrevia versos em seu caderno preto com capa de couro sentado em sua cama, quando mudou a página e se pôs a pensar. Muitas vezes ele questionava sua existência. Mas não havia chegado ainda de fato ao resultado. Abaixo dos versos ele colocou em parágrafos três pontos principais de suas dúvidas.
Ponto um: Escolho morrer agora.
Pois o dia de amanhã só tende a ser pior que o de hoje. As coisas só pioram e o medo é contagioso.
Ponto dois: Ninguém quer me matar!
Deve ser porque não costumo fazer muita coisa errada. Pelo contrário, tento ser apenas uma pessoa que esperam que eu seja. Me esforço muito, mas parece que nunca consigo agradar.
Ponto três: Quero me matar.
O motivo? Muito. Não vale a pena citar um por um. Mas como sempre, tenho que fazer tudo sozinho. Porém não existe coragem em mim para fazer isso, embora vontade não falte.
A caneta de cor vermelha era derramada sobre o papel, onde parecia deitar-se como sangue. O garoto se angustiava, e cotinuava a escreve, apenas para aliviar suas tensões.
Vai demorar muito para eu morrer? Se alguém me responder eu agradeço, pois não agüento mais tanta decepção. Minha vida é completamente diferente do que eu queria que fosse. Se eu não tenho o conforto que eu quero, eu poderia ao menos ter pais que se importassem comigo? Mas se parar para observar direito, qualquer um percebe que uma desgraça nunca vem desacompanhada.
Eu queria morrer...
Eu sei, é a milionésima vez que isso passa pela minha cabeça. Mas talvez eu seja tão inútil que nem isso eu consigo fazer. Entre nós, tentei uma única vez, mas não deu certo. (O que é obvio, porque senão eu não estaria escrevendo agora).
O que o garoto escrevia de certa forma era verdade. Ausência dos pais mexia muito com sua cabeça jovem. A ausência dos amigos também. Basicamente o garoto tinha ausência de companhia em geral. Ele achava sua vida chata e monótona. Vivia em sua rotina medíocre. Sua única tentativa de morte ocorreu aos seus doze anos, quando seus pais passaram mais de seis meses viajando a trabalho, enquanto ele ficava sob os cuidados de uma tia, na casa dela. Enganam-se os que pensam que ele recebia ligações todos os dia. E todos os meses.
Mas essa tentativa suicida aconteceu quando ele era um pouco mais jovem do que é hoje. Sua tia o pegou pendurado na janela do décimo oitavo andar, segundos antes de um pulo.
De certo modo, essa foi à razão de seus pais voltarem para casa. A presença dos pais voltou para casa. Mas a mente do garoto continuava solitária. Por isso ele continuava a escrever.
Sobre a questão da minha morte uma coisa está decidida: eu não vou cortar meus pulsos. Não só porque dói (pois dor pior eu já senti), mas porque sei que vou acabar não morrendo (de novo). E as cicatrizes iam ficar por um bom tempo, talvez até para sempre. Mas o problema com as cicatrizes não se dá pelo fato das pessoas me perguntarem o que havia acontecido, mas é porque eu acharia, com certeza, que elas ficariam feias nos meus braços.
Que saco! Quero morrer! Porque nessas horas ninguém ajuda? Essa casa é um presídio. Não eu alta o suficiente para que eu possa subir e me jogar para morrer. Talvez eu quebre apenas algumas costelas, mas não, não quero sentir dor. Só morrer.
Qual a minha utilidade nesse mundo? Fazer meus pais gastarem dinheiro? Não posso dizer que tomo atenção deles, porque atenção é tudo que me falta. Eu acho que o único motivo para eles me impedir de me matar, ou me deixarem morrer de uma doença assassina, seja apenas o fato deles não quererem que seus amigos os rotulem como “O casal que deixou o único filho morrer”.
Pode até ser que ninguém pense isso deles. Mas eu penso. Eles estão me deixando morrer, pois o abandono me mata mais do que qualquer outra coisa.
O garoto tinha lagrimas beirando nos seus olhos. Mas até o momento nenhuma tinha caído.
Morrer, morrer, morrer.
Tentação. Estou profundamente tentado pela morte.
Me pergunto porque muitos morrem na vontade de viver enquanto os que querem morrer vivem.
Queria que alguém tivesse perguntado se eu queria nascer. Nada seria melhor do que ser ouvido. E meu não naquele momento salvaria todo meu destino. A vida não são sorrisos apenas. Tudo conspira contra nós. Um vulcão quer nos matar. Um oceano e suas criaturas querem nos matar. A terra treme querendo nos matar.
Uma criança chora ao nascer por descobrir o mundo no qual ela vai ter que viver.
Subitamente o garoto voltou à página anterior, e uma linha abaixo de onde tinha parado continuou a escrever seus versos.

Oh morte, oh morte
Seja fria comigo
Chega logo
Me leva contigo.

Imploro a ti
Suga minha alma
Suga minha vida
Derrama meu sangue
Tira minha vida.

Ao terminar voltou para a página onde estava anteriormente. Voltou a escrever.
Viver, não viver. Viver, desviver.
Um copo de café envenenado garçom, por favor, já que não tenho uma madrasta má que me ofereça uma maçã envenenada. Uma única mordida, um grande e único passo para o outro mundo. Porque nem tudo nesse mundo reversível.
Mas se você prestar atenção é mesmo verdade. A maçã que cai do topo de uma árvore nunca mais poderá voltar ao seu lugar. Uma lagarta que virou borboleta e não consegue se acostumar com suas asas terá que buscar conforto no desconforto, já que ela nunca vai voltar a ser lagarta.
As reflexões do garoto eram bobas. Mas ajudavam na sua distração, e as lágrimas que beiravam pareciam ter entrado de volta nos seus olhos. Sua expressão era mais tranqüila, e um sorriso quase invisível se montava em seu roto. Mas era só aparência.
Perdi meu corpo, não perdi minha culpa.
Ele continuava a escrever.
Perdi minha cabeça e não me importei em pedir perdão nem a mim mesmo. Eu deveria começar a usar alguém. Sim, eu deveria começar a usar alguém. Mas já é tarde, eu vou já embora.
Meu cérebro deve estar murchando, já que não consigo pensar em outra coisa. Mas rasgar meu peito e quebrar minhas costelas para enfim tocar meu coração com minhas próprias mãos, só para ver o que está faltando nele, parece ser algo impossível. Mas seria bom olhar para esse desgraçado e ver o tamanho do culpado pelo meu sofrimento. Aposto que ele é preto de tão sujo. Aposto também que o sangue que há nele, por parte, é culpa do feroz espancamento interno.
Ele olhou para o caderno e decidiu voltar novamente para as páginas anteriores. Ele levantou da sua cama e foi ao seu guarda roupa, abriu as portas e puxou uma gaveta em baixo. Dessa gaveta ele tirou uma caixa preta, nem tão grande e nem tão pequena. Mas bem sofisticada. Ele fechou tudo, e continuou com a caixa debaixo de seu braço enquanto voltava para sua cama. Ele colocou a caixa próxima a si, pegou sua cante vermelha e voltou a escrever.

Oh morte, oh morte
Fique aqui comigo
Já que não me leva
Posso ser seu amigo?

Oh morte, oh morte
Arranca-me um beijo
O mesmo que já desejei dar
A todos os meus amores
Que nunca se importaram com minhas dores.

Ele parou e adiantou algumas páginas, para onde estava anteriormente. Desta vez aparentava bem mais tenso do que antes. Ele soltou a caneta, olhou para o nada e puxou a caixa preta para suas pernas. Ele abriu a caixa e olhou apaixonado para o que viu ali dento. A arma de seu pai. E carregada com uma bala solitária.
Nada mais do que um suspiro. Não quero que prolongue isso. Não que ver o fim desse dia.
Angustia, angustia, angustia.
Na verdade minha decisão já foi tomada.
Chorar não. Choro nunca resolve nada. Na maioria das vezes um choro é um aviso, e eu não quero avisar nada a ninguém.
Ele então engatilhou a arma. Rapidamente voltou às páginas do seu caderno e escreveu:

Oh morte, oh morte
Chegue rápido e consciente
Venha em cima do seu cavalo preto
Com seu sorriso impaciente.

Oh morte, oh morte
Confie em mim nesse momento
Quero mais a ti do que a mim
Talvez morto eu me sinta vivendo.

E assim foi. Ele nem ao menos fechou o caderno, apenas colocou a arma na sua cabeça e puxou o gatilho. Ele ouviu o grito da arma no seu ouvido, e caiu deitado em sua cama, como se estivesse dormindo de qualquer jeito.
Seus pensamentos correram vermelhos na sua cama, e se misturaram com a caneta vermelha das folhas de seu caderno.
No andar de baixo, mais duas vidas se perderiam.

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