1990

Eu tinha lá uns 7 anos quando eu era a primeira a acordar em casa aos domingos. Fazia meu copo de leite com Nescau (e me orgulhava por poder fazer isso sozinha) e buscava por algum canal com desenhos animados que pudessem me entreter.
Meu maior desafio era amarrar o cadarço do tênis sem precisar fazer laço e passar todas as fases da brincadeira do elástico.
Quantas e quantas vezes paguei o maior mico da vida, quando minha mãe me pegava de bandana na cabeça, vassoura em punhos, tentando cantar Patience, no Guns'n Roses? Aliás, era nos vinis dos meus irmãos que eu me aventurava: tinha de MC Hammer a Nirvana.
O maior segredo que eu queria desvendar era ver a cara da babá do Muppets Baby, ou da empregada do Tom & Jerry. Seria um marco na minha vida, até hoje, se gravassem tal cena, só pra me tirar da curiosidade.
Eu só queria que chegasse o final de semana pra não ter que ir pra escola. E o Natal era a data mais esperada do ano, pra poder ver todos os primos, comer comidinhas gostosas, ganhar o presente mais esperado e ouvir histórias da minha vó sobre o cara gente boa responsável pela data.
A gente escrevia no caderno das amigas com frases simples e até então desconhecidas, com jargões passados 'te curto pacas', 'te amodoro', desenhava dois olhinhos nos O's do LOOK, e colocava um S grande para escrever SEJA SEMPRE SABIDA. Tudo com todas as cores de caneta do mundo.
O tempo vai passando, e a gente deixa de usar aquele tênis dois números maiores pra que ele dure muito mais no armário... passamos a ser mais taxativa nas nossas escolhas, seja nas roupas, na amiguinha da turma, nas capas de cadernos... O disco da Xuxa já está na fila das doações, junto com todas aquelas roupas rosa que costumava usar... e tudo vira um inferno quando você fica mocinha.
A parte boa é que mamãe passa a deixar a gente fazer o que antes era proibido: pintas as unhas, depilar as pernas, usar sutiã, usar a maquiagem dela e tirar a cutícula. Quer dizer, isso, no começo, era a parte boa.
A parte ruim é que tudo o que era bom antes, se torna chato depois. E o incômodo de usar absorventes durante o ciclo menstrual perpetua pro resto da vida, ou até você entrar  na menopausa. Mas essa é uma história para outro capítulo, o qual ainda não cheguei.
Ser a primeira a acordar aos domingos se torna algo levemente difícil. Deixar o Nescau de lado pra evitar as espinhas já vira uma necessidade. O maior desafio é encontrar alguma roupa que fique legal, parar de roer unhas, encontrar coragem pra fazer Educação Física, provar pra si mesma que entende de Matemática, e mostrar ao professor que Química não é um porre como sua cara durante as aulas demonstra ser.
Os micos habituais passam a ser quando o garoto que você gosta descobre seus sentimentos, quando alguém te pega beijando algum menino e conta pra sua mãe, ou quando se tomava carcada da mesma professora de Educação Física porque você está enrolando pra fazer os exercícios.
O maior segredo a ser desvendado era o que se passava na cabeça dos meus pais, dos meus irmãos mais velhos, do menino que eu gostava e de toda essa gente que eu jurava que era confusa e difícil (quando na verdade, era eu a dona de tais adjetivos). 
Eu só queria que o final de semana chegasse logo para não ter que ir à escola. E o Natal era a data mais esperada do ano pra que eu pudesse ganhar minha roupa nova, mas eu sempre ganhava coisa que eu não gostava, rever os meus primos, comer chocotone sem me preocupar com as espinhas e pegar a grana que a avó sempre dava aos netos.
A escola acabou e a saudade de muitos amigos ficou. Era a hora de eu me preocupar com o que eu ia ser de verdade. E meu maior desafio passou a ser não fazer a escolha errada. 
Passei a comer chocolate como louca, mais preocupada em engordar do que com as espinhas. Mas era uma válvula de escape para a ansiedade, que me tomava por conta das responsabilidades da faculdade, e quando esperava a ligação de um garoto que eu tinha acabado de conhecer.
Os micos passaram a ser parte do cotidiano, e a gente sentia mais vergonha dos outros do que de si mesmo. No máximo, vomitar na casa ou carro de alguém depois de beber demais. Mas esse tipo de vergonha passava no final de semana seguinte.
O principal desafio era não pegar DP na faculdade e não me apaixonar em época de provas, e o maior mistério a se desvendar era saber a resposta da prova que o professor queria que você desse. E eu só queria que o final do semestre chegasse logo para que eu entrasse de férias e parasse de pensar muito, fazer mil trabalhos e estudar para centenas de provas.
Já tinha pensado que amei por 3 vezes. Errei em todas.
Os Natais passaram a ser datas mais comuns. Vários primos pararam de aparecer. A comida continuou boa e minha vó não aguentava mais ficar muito tempo acordada. 
Depois que a gente se dá conta que 1990 ficou 21 anos pra trás é que a ficha cai, mas nem tanto. Não percebemos quando o tempo passou e você deixou de ser a menina do cabelo penteado pela mãe e tornou-se uma profissional qualificada, com responsabilidades muito maiores do que se manter acordada na aula chata da escola. A gente não sente o tempo passar! O que antes era choro por uma palmada na bunda, por conta de uma malcriação, virou choro por conta de uma crise de TPM. Não percebemos quando as espinhas param de nascer, que depilar as pernas se tornou um hábito, que se apaixonar já se torna constante na sua vida (seja por coisas, por pessoas, por lugares...) e que seus maiores desafios passam a ser manter seu nome limpo, seu dinheiro na conta, seu aluguel em dia, e que você só quer que chegue logo o final de semana pra você lavar as suas roupas, levar o cachorro pra passear e ver o namoradão.
Acordar cedo aos domingos? Oi? Que mané acordar cedo! Esse se torna o maior desafio! Os Natais não são mais como antes - os primos já se casaram, passam a data na casa das sogras, hoje é a sua comida que está em cima da mesa... e minha vó... ai a minha vó! Que saudade daquela velhinha...
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6 comentários:

  1. Sheila, já pensou em escrever um livro? Quero ser VIP na sua tarde de autógrafos.

    Bêajs.

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  2. Hahaha, eu até penso, Saritcha, mas e a preguiça?
    Aí começo uma ideia, paro na metade porque elas já começam a se conflitarem na cabeça... aí já viu, né?
    Mas pode deixar que, se isso acontecer, a primeira taça de champagne será sua ;)

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  3. Magnífico She, como sempre! Está de Parabéns. Beijos

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  4. Me senti tão EU nesse texto :s

    ê vidaaa, como o tempo passa, não?!

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  5. Ahhhh que lindo! Emocionei agora!

    Sempre tem coisas que deixam uma marca na gente... eu lembro que nos meus 9-8 anos adorava avril lavigne e ficava copiando e cantando as musicas dela o tempo todo... ahh também lembro da minha primeira paixão... do primeiro beijo, da primeira desilusão (pq o primeiro amor platonico sempre não dá em nada???), das manhas de adolescente... até que hj percebi que que estou no ultimo ano de escola e já sou uma mulher!estou me sentindo velha e saudosista agora kkk...

    Mas enfim, otimo texto, realmente essas memorias duram a vida inteira...

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