"Ela ama conversas profundas e sinuosas que sobem e descem, em especial de madrugada, quando todo mundo deveria estar dormindo. Esqueceu-se da forma como conversas, conversas muito boas, podem mudá-la; metamorfoseá-la como uma árvore. Às vezes deixá-la desnudada, às vezes deixá-la mais cheia."
Todo fim de ano eu escolho a dedo uma leitura para o período de recesso. Gosto de escolher um livro leve ou contemplativo para essa época em que as datas festivas nos deixam mais vulneráveis e que estamos com a cabeça cansada de todos os percalços que o ano que está acabando nos reservou. E quando deixei a leitura de "como arruinar um casamento" para esta época, eu sabia que era uma boa escolha, mas não imaginava que era uma escolha TÃO CERTEIRA.
Primeiro porque a sinopse nos entrega somente uma superficialidade de tudo que há neste livro. Não é somente sobre uma personagem que quer dar fim na sua vida em uma pousada onde rolará um casamento. É sobre a personificação de alguém que sempre está disposta a ouvir, mas que ninguém nunca para pra ouvi-la. É alguém que sempre se preocupa com o bem estar das pessoas, a ponto de se diminuir para não correr o risco de amplificar ainda mais a dor do outro. É alguém que nunca conviveu com pessoas que demonstrassem o quanto a sua existência é importante, mas conseguiu enxergar isso nas pessoas que nunca tinha visto antes na vida.
"Não existe de verdade um lugar feliz. Porque, quando se está feliz, todo lugar é um lugar feliz. E, quando se está triste, todo lugar é um lugar triste."
Não é só sobre um suicídio que pode arruinar um casamento - aliás, este título na verdade não é tão preto no branco assim, há inúmeras camadas por trás dele. É Phoebe quase arruinando o casamento de Lila com a sua decisão de acabar com sua vida? É Matt arruinando o casamento pedindo o divórcio? É Lila e Gary arruinando algo que nem sequer começou com seus respectivos votos de silêncio? Ou Phoebe arruinando tudo com seus sentimentos? Me arrisco a dizer que é tudo isso.
Há ainda inúmeras reflexões poderosas sobre a nossa própria existência como indivíduo e na vida das pessoas, e para isso, a autora construiu muito bem a personagem principal e seus protagonistas, com diálogos intensos entre todos os personagens. E nada melhor que uma semana inteira hospedada em uma pousada para um casamento para que todas essas conversas aconteçam de maneira espontânea, sem se tornar cansativa ou forçada.
As referências literárias contidas nessa obra dizem muito sobre a própria autora também, e como essas histórias clássicas não trouxe inspiração a ela, como também ditou o rumo que Phoebe tomaria em suas decisões, transformando seu próprio trabalho em um livro tão inspirador quanto, de maneira bastante original.
"Como arruinar um casamento" não é uma história que te promete um final bombástico, um plot fenomenal, um começo, meio e fim inesquecível - a premissa é puramente reflexiva. A ideia é fazer você parar para pensar na importância de sua existência, que muitas vezes a nossa vida parece ser sem sentido porque NÓS nos permitimos encaminhá-la para isso, nós que nos habituamos a uma rotina ordinária e sem propósito, nós que muitas vezes não lutamos por absolutamente nada que almejamos porque a inércia é mais confortável. Porque as vezes a solução para tudo é parar para olhar para dentro, enxergar o que estamos fazendo de errado e sacudir a poeira para promover as mudanças necessárias em nosso percurso.
"tornar-se quem você quer ser é como qualquer outra coisa. Exige prática. Exige acreditar que, um dia, vai acordar e fazer isso naturalmente."
A única ressalva que tenho deste livro é puramente técnica: havia inúmeros erros no ebook, e acredito que sejam erros de tradução que passaram batidos na revisão (principalmente no final do livro).
Nota: 5/5
Compre "como arruinar um casamento" na Amazon clicando aqui.
Postar um comentário