Vi na Veja: O Bond do Tigrão

Nesta última sexta-feira, pude conferir um dos filmes que eu mais aguardei ansiosamente o lançamento: 007 – Operação Skyfall. O último lançamento da saga James Bond contou mais uma vez com a brilhante (e elegante) atuação de Daniel Craig, eleito por mim como “O CARA”. 

Na minha humilde opinião (e da torcida do Flamengo), este foi de longe o melhor 007 de todos os tempos. Vim seca aqui pra escrever algo a respeito do filme, mas lendo a Veja deste sábado encontrei o excelente texto da jornalista Isabela Boscov que diz exatamente TUDO o que penso a respeito deste longa, e resolvi dividi-lo com vocês: 



“Meio morto de cansaço e com um tiro no ombro, James Bond salta para dentro do vagão de trem que acabou de abrir no meio com uma escavadeira – mas, antes de partir para cima do sujeito que está perseguindo, para e dá aquela puxadinha curta no punho da camisa para alinhá-la com a manga do paletó. E assim, mais ou menos aos dez minutos de 007 – Operação Skyfall (Skyfall, Inglaterra/Estados Unidos. 2012), fica decidido: Daniel Craig É James Bond. Em cinquenta anos de história, 22 filmes (este, desde sexta-feira em cartaz, é o 23º), 13 bilhões de dólares de bilheteria e seis intérpretes, só de Sean Connery se pôde dizer isso. George Lazenby e Timothy Dalton foram Bonds ruins; Pierce Brosnan foi um bom Bond; Roger Moore foi Bond para uma facção de fãs, mas nunca chegou a convencer o restante deles; e, em Cassino Royale, de 2006, e Quantum of Solace, de 2008, Craig fora um Bond excelente. Agora, porém, ele é tão dono do personagem quanto Connery jamais o foi, e o compreende melhor do que qualquer outro. Aí entraram múltiplos significados da ajeitada na roupa. Primeiro, Bond é um profissional consumado, e o terno é o seu uniforme de trabalho – respeito com ele. Bond desfruta o perigo e está em seu elemento natural em situações de risco – de forma que mesmo um momento extremo lhe é longo o suficiente para acomodar na só decisões estratégicas como também gestos corriqueiros. Bond jamais vai dar a um oponente a satisfação de perceber-lhe pressionado – e por isso a prefacia a violência com uma demonstração de calma e arbitrariedade. E Craig nunca se divertiu tanto com Bond – e, assim escolhe justamente o instante mais decisivo para dar uma piscadela para a plateia e lembrá-la de que nem o personagem nem o seu intérprete se levam a sério demais, e aí está sua virtude essencial. 



Não se levar a sério não significa encarar o trabalho com leviandade. Bem ao contrário: Skyfall transpira o empenho concentrado de seu impressionante plantel de talentos em destilar o apelo de Bond, despi-lo de todo o supérfluo e devolvê-lo então à cena em sua forma mais pura. Bond é dado como morto, e cogita aproveitar a deixa para retirar-se da ativa em definitivo. Uma explosão atinge o quartel-general do MI6, a Inteligência Britânica. M (Judi Dench), a chefe do MI6, não estava no prédio: a intenção era que ela assistisse impotente ao atentado e às mortes que ele provoca. Bond, que tem uma relação conturbada e freudiana com essa figura materna, retorna: é preciso caçar o elusivo Silva (Javier Bardem), o responsável pelo atentado, que tem contas ainda mais tortuosamente edipianas a acertar com M. Como visto em ‘Onde Os Fracos Não Tem Vez’, Bardem tanto mais brilha quanto pior seu penteado – e Silva, com sua cabeleira oxigenada e escovada, é um vilão para fazer história. Antes de mais nada, porque o roteiro lapidar de John Logan joga pela janela todos aqueles tolos planos de dominação mundial e caçadas a artefatos tecnológicos: Silva é ciberterrorista, uma criatura contemporânea que age a distância e almeja não qualquer espécie de nova ordem, mas a anarquia geral e o seu proveito particular. Depois porque, na interpretação de Bardem, tudo para Silva é pessoal ‘O que diz o protocolo sobre situações inéditas com esta?’, ronrona Silva, acariciando as coxas de Bond rumo a regiões cada vez mais indiscretas. ‘E quem disse que esta é a primeira vez?’, devolve Bond. Um 007 em que a cantada mais erótica é de homem para homem – mundo realmente mudou. 



Quando Sean Connery se anunciou como ‘Bond, James Bond’ pela primeira vez, em 007 contra o Satânico Dr. No, o mundo acabara de entrar na era do jato e da pílula anticoncepcional e União Soviética e Estados Unidos estavam à beira do confronto nuclear com a crise dos mísseis de Cuba. No universo da ambição masculina, vivia-se uma fase heroica: grandes riscos. Um sujeito como Bond nunca ouviria a palavra ‘protocolo’ – e não é por coincidência que, à parte a licença para matar, a melhor retradução do personagem clássico é hoje o Don Draper da série Mad Men. O Bond de cinco décadas adiante vive em outro mundo, no qual M tem de prestar contas publicamente ao Parlamento e Bond precisa passar por uma versão extrema de check-up empresarial para reaver sua licença. A toda hora, alguém ameaça decretar sua obsolescência: Bond tem mais de 40, e a fila quer andar. O seu, enfim, é um mundo no qual o risco das decisões executivas é tolhido e escrutinado pelo sentimento corporativo de autopreservação mesmo quando se reconhece sua necessidade. Os homens da década de 60 adorariam ser playboys internacionais, como Bond. Os homens – e as mulheres – desta década dispõem de farto material, em Skyfall, para continuar invejando esse aspecto da vida do agente secreto. Mas têm também razões para se identificar com sua frustração profissional. 



Nada mais invejável, contudo, que o solene desplante de Bond para a opinião ou as regras alheias – e Craig, no seu mais propulsivo, enche o personagem de vigor em vista da oportunidade de uma operação clandestina para eliminar Silva e salvar M. Entrar na clandestinidade, no caso, implica retornar ao básico: quando Q, agora não mais um engenheiro de jaleco mas sim um nerd petulante (Bem Whishaw), lhe entrega apenas uma arma e um pequeno transmissor de rádio, o filme ganha uma excitação impar: sem canetas explosivas nem outras engenhocas absurdas, Bond só pode contar com a própria inteligência e audácia, mais um pente de balas e um velho Aston Martin DB5 prateado (o mesmo que Connery, homenagedo de mil maneiras sutis) (...) 



(...) Craig agora ama Bond, e seu amor é plenamente correspondido. Só resta à plateia, portanto, apaixonar-se por um e outro também. “
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Para ver o texto da Isabela na íntegra é só correr pra banca esta semana. E pra quem não assistiu ainda Skyfall, fica a dica de um ótimo filme para o final de semana que vem. Garanto que você vai gostar do começo ao fim, já que um pouco do passado de James Bond é retratado no melhor longa da série.

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