Ela quer, mas não quer.


Ela sempre me dizia que esperava pela pessoa certa. E eu sempre acreditei, pois nunca a vi com ninguém por mais que duas semanas. Passei por alguns namoros longos, e ela sempre aparecia nas reuniões de casal sozinha, e muito bem, obrigada. E sempre que alguém perguntava que tipo de homem seria pra ela a pessoa certa, uma longa pausa pensante inundava o ambiente. A resposta era sempre com um vazio ‘não sei’. Vazio e convincente.

Realmente ela não fazia ideia de como seria a pessoa certa – só sabia que essa pessoa realmente existia. Em algum lugar, distante ou não, mas existia. E o mais engraçado é que, diferente de todas as outras pessoas, ela nem sequer procurava. E a procura por ela era intensa, pois é dona de uma beleza que chama muito a atenção dos homens. Mas de QUALQUER homem. Até mesmo de homens homossexuais, pois as que não a desejavam, ao menos queriam ter aquela beleza exuberante dela. O que a impedia de se entregar para qualquer espertalhão que aparecesse com interesses sexuais possivelmente era o fato de acreditar que sua beleza chamava a atenção erroneamente.

Além de ter belos olhos e corpo, ela também queria mostrar o quão era inteligente e digna de respeito. Sem essas coisas de tomar precaução para não ser somente uma de uma noite só. Mesmo que, para ela, alguns fizeram parte de sua uma noite só...

Até que um dia ela achou a pessoa certa. Conheceu e sem mais explicações estava ali na sua frente. Ainda sem saber explicar o motivo pelo qual aquela era a pessoa. Ela só sentiu e teve certeza. Mas nunca passou pela sua cabeça que sentir ter encontrado tal esperada pessoa fosse deixá-la sem personalidade. E isso a deixava indignada. Ao sair de casa, olhava-se no espelho e dizia ‘hoje serei eu mesma’, mas quando chegava ao ponto de encontro, se pegava enchendo a cara de vinho e falando porcarias sem sentido só pra surpreendê-lo. Ria de coisas que não tinha a menor graça, dançava as músicas que não gostava, passava o esmalte da cor preferida dele, e era a cor que ela jurava que nunca ia comprar. Desenterrou do guarda-roupas aquela saia que ela achava que a deixava gorda. Tudo isso para sensualizar para o homem que a tirou daquele marasmo de desconfiança e desilusão do amor.

Ele foi buscá-la na sua casa, almoçou com seus pais, a levou para jantar em um restaurante caro, apresentou para todos como sua namorada e disse palavras bonitas ao seu ouvido, antes de beijá-la. E quando se permitiu ficar nas nuvens, se sentiu estranha de novo, mas desta vez por ter ligado sem precisar fazer jogo e não foi atendida como queria.

E de segura ela passou a ter medo. Como todas as outras garotas, sentiu medo da rejeição e de ter sido tola por se entregar demais. No contexto, ela nem se entregou tanto assim, mas para quem nunca tinha brincado de se jogar, em sua cabeça era o suficiente para querer se esconder em um ‘black hole’ e nunca mais aparecer. Mesmo com o retorno da ligação duas horas depois, pra ela aí já tinha coisa. Passados alguns dias, o retorno nem existia mais, apenas aquela infinita chamada nunca atendida.

E querendo explicações, ela se viu desconfortável em exigir, mesmo tendo esse direito. Mesmo triste, desistiu de entender, e preferiu passar a acreditar que a pessoa certa não manda sinais de quando vai chegar – esses são somente os hormônios correspondendo à atração. Não tinha referências do que era um romance ideal, e continuava sem saber direito como seria a próxima pessoa ideal. Mal sabia se tinha medo de se entregar de novo. Não por preguiça, mas por realmente não ter respostas.

Voltou a aposentar aquela saia que a engordava. Jogou aquele esmalte ridículo fora. Olhou pro espelho de novo e jurou nunca mais enfrentar outra ressaca de vinho só pra ter coragem de dizer o que nunca diria em sã consciência. Mas achou graça por ter tido tanto cuidado pra não se enganar, que viu que faz parte da brincadeira de se jogar também tomar um pouco na cara de vez em quando...

2 comentários:

  1. Tuka! Que saudadessssss dos seus textos!

    Ameiii esse!!!

    Ahh acho que vou copia-lo para por no meu blog ok?! E logicamente te darei os créditos!

    Acho que parte desse texto retrata um pouco de mim! :)

    Bejooos

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  2. Bruh, queridona!
    Mas é CLARO que pode copiar. E fico feliz por ter conseguido fazer você se identificar com o texto!
    Beijo grande!
    Tuka

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