This Is Us: uma despedida sem sair do tom

 


Desde quando This Is Us foi lançada em 2016, não perdi um episódio sequer (até indiquei a série neste post para maratonar na quarentena). Isso porque desde o primeiro capítulo, no qual a história já começa a ser contada costurando o presente, passado e futuro, já me pegou de um jeito indescritível. Mentira vai, posso descrever exatamente o motivo pelo qual me apeguei a todos os personagens do começo ao fim, mas a verdade é que precisaria de posts e mais posts para ser democrática à esta descrição.

E falando em costurar os diferentes tempos, a essência de This Is Us é justamente esta - mostrar de forma não linear como uma coisa do passado pode impactar o futuro, de maneira boa ou ruim. Muitas vezes não nos damos conta do quanto os hábitos se tornam parte da nossa personalidade, e podem nos influenciar de diferentes maneiras.

Ainda sobre o bom e o ruim, algo que é muito latente na série é que a cada temporada amamos e odiamos algum personagem. Sem exceção. E até isso existe um motivo - porque na vida real, somos assim - pessoas com seus dois lados, e não tem coisa mais humana que isso. Não é sobre ser bom ou ruim, é sobre existir, com seus erros e acertos, com suas escolhas certas ou erradas.

Vou dar como exemplo o personagem William, o pai biológico de Randall, interpretado por Ron Cephas Jones. Começar a série odiando-o por ter abandonado o garoto ainda recém-nascido é quase inevitável. Mas os roteiristas tiveram toda a delicadeza de mostrar todos os lados da situação, que no final das contas, além de você se apaixonar por William, entende que aquela situação horrível de abandono, na verdade, deu a oportunidade à Randall de ter uma vida melhor que ele jamais poderia lhe oferecer. E toda dor sentida pelo personagem até o momento do confronto entre os dois personagens te carrega de empatia até o último fio do cabelo. A personificação dessa essência de que não existe bom e ruim nos presenteia com um dos melhores personagens da série, que nos oferece a cada episódio que ele aparece uma bagagem repleta de aprendizados preciosos sobre a vida.


E quem ousa dizer que This Is Us não fala sobre a vida, está redondamente enganado. Se tem uma coisa que essa série faz com maestria, é mostrar para nós o quanto ela fala sobre a vida de uma maneira muito peculiar. Todo mundo conhece essa obra como "a série que faz todo mundo chorar", mas pode apostar que não é a toa. O motivo pelo qual você se emociona é que em algum momento algo que te faz falta em sua própria vida te pega em cheio. Ou algo que você ama demais a respeito da sua família está ali meio que estampado em algum episódio. Ou simplesmente porque você se identificou com algum personagem em um determinado momento da sua vida. Nenhum episódio, repito, NENHUM episódio precisou apelar para cenas clichês para arrancar lágrimas dos telespectadores - aliás, em This Is Us cenas previsíveis de casamentos, velórios ou partos não existem. Essas situações são contadas por outras perspectivas. O apelo emocional de This Is Us está nas pequenas coisas.

E na montanha russa de sentimentos por todos os personagens, está o carinho fixo e imbatível, unânime, por Jack Pearson, interpretado por Milo Ventimiglia. Marido incrível, pai maravilhoso, amigo  sensacional, Jack era o respiro dos altos e baixos da série, mesmo que seu personagem tenha trazido um momento divisor de águas para o futuro de todos os outros ali. Dentre suas fraquezas e anseios, Jack sempre se manteve presente na vida dos filhos e de sua esposa, Rebecca, de diferentes maneiras, e enquanto ele tinha mil motivos para ser uma pessoa extremamente difícil (teve uma infância dura, pai alcoólatra e agressivo, foi combatente de guerra, se apaixonou em sua pior fase financeira), ele fez com precisão o que o obstetra do primeiro episódio disse: "transformar um limão em uma limonada". Para mim, a frase mais emblemática de todas as temporadas foi ele quem disse no episódio final, e me fez pausar a série para chorar por 10 minutos seguidos: 

“O que fazemos é colecionar momentos sem importância. Não os reconhecemos quando acontecem, pois estamos ocupados olhando o futuro, mas passamos o resto da vida olhando para trás, tentando nos lembrar. Tentando revivê-los”.



O grande final

Hoje eu me despedi de This Is Us como se eu tivesse arrancado um band-aid. Acordei mais cedo do que de costume, fiz um café, e com meu roupão confortável me permiti atrasar 40 minutos do meu dia para assistir o último episódio. Já tinha tido um resumão do que seria no capítulo anterior, no qual Rebecca passeia por vagões de um trem em movimento, revisitando memórias com os seus. Eu já sabia o que estava por vir.

E assim como foi com o episódio especial de Miguel, a despedida de This Is Us foi movida por lembranças inesquecíveis e breves comentários sobre o futuro. Teve reencontros que ansiamos por todas as temporadas e um saudosismo de arrancar suspiros. Teve um balanço de tudo o que a série nos ensinou sem mencionar uma só palavra sobre isso. Teve William explicando para Rebecca (e para nós), o quanto a vida deve ser vivida com intensidade, sempre lembrando que as coisas acabam sem aviso prévio. E além da tela da TV, teve uma telespectadora aqui que viu um filme inteiro sobre a sua própria vida passando pela cabeça, desejando que todo mundo que teve o privilégio de degustar desta história possa sentir o coração acolhido da mesma forma que senti, independentemente de toda história que já viveu.

Porque em This Is Us foi assim - uma lição sobre amar as pequenas coisas da vida.

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