Juliana Trinci: Deveres


Eu deveria pensar em diversas outras coisas. Eu deveria pensar no financiamento da minha casa. Eu deveria pensar em fazer algo diferente no trabalho. Deveria realmente me preocupar em trocar a ração do cachorro. Importantíssimo lembrar da areia do gato - que está quase acabando. Deveria me perguntar se a academia vale a pena, se uma pós se encaixaria no meu orçamento e planejar o dia em que eu começaria a auto escola. Pensar em melhorar meu perfil no Linkedin, correr atrás de mais freelas para conseguir pagar minhas contas, pra ontem, pra já. Começar a ler sobre reformas, ver se o dinheiro do pagamento realmente dará para pagar tudo. Ler todos os livros que peguei na biblioteca, isso é tão urgente! Ihhh, mais um mês renovando os mesmos livros...

Precisaria deixar separada minha roupa de amanhã, programar o despertador e mandar bom dia no grupo da família no Whatsapp.

Deveria estar preocupada (e ocupada) com tudo isso. Mas a única coisa que vem em minha mente é ele. Cada música, cada piada, cada trecho de filme que assistimos juntos. Quando acordo e vou tomar café.
Café é modinha, quem em sã consciência gosta de café?
Bebo meu café que eu amo. Vou tomar banho...
“Eu também preciso tomar banho pra acordar, senão vou trabalhar feito um zumbi”
Quando estou indo trabalhar e recebo mensagens do trajeto, lá do outro lado da cidade:
“ Não é que seu trabalho é perto, é que deu certo de trabalhar tão longe quanto sua casa”
Eu o conheci na fatídica biblioteca. Ele chegou perto de mim e pediu indicação de um livro. Quer coisa mais clichê que isso? Na verdade não foi bem uma indicação que ele pediu. Chegou perto de mim dizendo "esse livro é tão legal! Pena que é uma bosta. Tem outro menos ruim para me indicar?”. Fiquei olhando para ele, sem saber o que pensar. E então ele desarma “Fui péssimo né? Nunca soube puxar assunto, sempre falo nada com nada”. Rimos os dois. 

Desde então isso passou a ser a nossa piada interna. A mania de falar coisas sem sentido quando ficamos nervosos, entre outras diversas manias. Mania de não gostar que pessoas estranhas fiquem nos esbarrando no trem: “Aff, não me rela”. Ele adora rir, e eu também. E eu adoro o riso dele. Somos aqueles tipo de pessoa que começa a rir no começo da piada.

Todos os momentos ele está comigo, na minha mente, em mensagens do celular, em ligações no meio do dia. 

E aquele medo vai crescendo. Medo de ser decepcionada de novo. Medo de me machucar novamente. Se apaixonar dá medo. 

Dá medo porque você fica praticamente esperando a hora que a pessoa vai falhar. A hora que a pessoa vai te decepcionar e depois te largar. Começa a tentar caçar defeito. Algo de errado tem que ter. Não, ele não pode ser tão parecido com você. Não ele não pode ser deliciosamente sarcástico, mas ao mesmo tempo tão doce. Ele não pode fazer coisas tão patéticas que me fazem rir a ponto de deixar as minhas preocupações de lado.

Mas é preciso tentar. É preciso acreditar. Então, vamos lá. Pode ser que dessa vez não dê errado. Pode ser que dessa vez não doa. Pode ser que dessa vez seja legal.

Bora viver.

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