Gilda não consegue parar de pensar sobre a morte. Desesperada para ter um alívio de sua mente ansiosa, ela se inscreve na terapia oferecida pela igreja católica de seu bairro, mas o padre imagina que a garota está lá para uma entrevista de emprego. Pega de surpresa e sem coragem de corrigi-lo, Gilda acaba sendo contratada para ocupar a recém-aberta vaga de recepcionista. Não é o trabalho que qualquer pessoa imaginaria Gilda aceitando, afinal ela é ateia e lésbica. Dividida entre tentar não chamar atenção para si, aprender como funciona uma missa e conduzir uma investigação amadora ao descobrir que a antiga recepcionista faleceu — talvez não por causas naturais —, ela se esforça para não demonstrar o temor que sente a respeito de sua mortificante existência. Todo mundo aqui vai morrer um dia mistura ternura, humor e reflexões pertinentes a respeito da condição humana em uma vibrante investigação sobre o que é preciso para sobreviver em um mundo em que a sua data de validade — e a validade daqueles que amamos — é a única certeza que temos.
Sinopse da editora
"Às vezes, fico vidrada em como os humanos são repug-nantes. Penso no tipo de coisa que fazemos, como jogar lixo no chão e inventar bombas nucleares. Penso em ra-cismo, guerra, estupro, maus-tratos infantis e mudanças climáticas. Penso no quanto as pessoas são nojentas.
Penso em banheiros públicos, axilas, nas mãos sujas de todo mundo. Penso em infecções e doenças se espa-lhando. Que cada ser humano tem uma bunda, no quanto isso é asqueroso.
Em outras ocasiões, eu me concentro no quanto as pessoas são encantadoras. Dormimos em superfícies ma-cias, gostamos de estar aconchegados. Quando vejo gatos aninhados em travesseiros, acho meigo: nós também somos assim. Gostamos de comer cookies, gostamos do cheiro de flores. Vestimos luvinhas e capuzes. Visitamos nossa família mesmo depois de velhos. Gostamos de fazer carinho em cachorros. Nós rimos: fazemos sons in voluntários quando achamos algo engraçado. Rir é uma coisa muito bonitinha, se pensarmos bem no assunto.
Temos hospitais. Inventamos prédios com o propósito de ajudar a consertar os outros. Médicos e enfermeiros estudam anos para trabalhar aqui. Eles vêm para cá todos os dias, só para remendar outras pessoas. Se descobríssemos que algum outro animal criou uma infraestrutura esperando que seus coleguinhas animais se machucariam, ficaríamos todos comovidos e maravilhados."
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"Todo mundo aqui vai morrer um dia" é basicamente um resumo da cabeça de muitas pessoas, principalmente no pós pandemia, e que acende um alerta sobre saúde mental, que muitas das vezes a gente acaba negligenciando por acreditar que a vida não pode parar (mas é justamente negligenciar este cuidado que acaba forçando a vida parar porque no fim cobra um preço alto para colocar tudo no lugar novamente).
Este livro é completamente diferente do que eu tinha imaginado ao ler a sinopse. Primeiro que ele se vende como um livro bem humorado, e honestamente, eu não ri em nenhum momento, porque achei o assunto bem, mas beeeeem sério. Mas sabe quando parece que você escolheu o livro certo para um momento específico da vida, mesmo sem querer? Eu demorei muito mais do que o habitual para terminar essa leitura por estar em um momento da vida com a cabeça toda bagunçada, e enxergar a vida pela perspectiva da Gilda, uma personagem completamente depressiva, desacreditada, completamente insegura (principalmente com o seu futuro) e conduzindo sua vida para um caminho nada legal (a ponto de deixar de cuidar da casa, de cuidar de si mesma e negligenciar seus relacionamentos) me fez parar pra pensar em muitos aspectos da minha própria vida.
A história é escrita em primeira pessoa, então é muito mais fácil entrar na cabeça da protagonista e entender toda a bagunça que acontece lá dentro, todos os anseios, traumas e angústias que a personagem vive, por consequência de diversas vivências do passado que abriram feridas que nunca foram curadas. E acompanhar o quanto essas feridas se tornaram um grande monstro na vida da Gilda é bastante assustador, e muito, muito real.
É uma leitura que a gente precisa começar e terminar de coração e mente abertos, sem julgamentos, porque no fim a depressão é exatamente isso - um caminho em que você se perde e muito, encontra um milhão de obstáculos, e mesmo as pedrinhas acabam ganhando proporções de grande muralhas porque todo dia é uma grande luta até mesmo para sair da cama.
Editora Astral Cultural
323 páginas
ficção contemporânea - comédia dramática
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